Carnaval, eu também quero.

Por Guilherme Bara

Apontado por muitos como um dos maiores espetáculos da Terra, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro encantou mais uma vez os milhões de telespectadores que puderam acompanhar em cada detalhe a passagem das 13 agremiações do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí.

Após o jantar, liguei a televisão a fim de curtir tudo que as escolas trariam para prender a atenção do público. O enredo, os carros alegóricos e as fantasias, as coreografias, os personagens e tudo mais.

Quando as escolas começaram a passar, percebi que minha expectativa seria frustrada. Não pela falta de talento, criatividade ou beleza por parte das concorrentes ao título do carnaval, e sim, porque as maravilhas apresentadas seriam privadas as pessoas que como eu são cegas ou tem dificuldade visual.

Os apresentadores falavam dos carros e das alegorias com um superficial toque de descrição, insuficiente para uma boa compreensão por parte das pessoas que não conseguiam ver as imagens. A descrição era complementar.

A partir da segunda escola, perdi a atenção no desfile e comecei a imaginar quais seriam os argumentos para convencer os apresentadores a detalhar a descrição das imagens. As pessoas cegas poderiam ter acesso e usufruir de uma maneira mais intensa do desfile. Pessoas idosas e com baixa visão, além de pessoas com dislexia também se beneficiariam.

E quanto às pessoas que não tem dificuldade alguma em enxergar? Fiz-me esta pergunta, porque, infelizmente apenas esta resposta poderia ser capaz de sensibilizar os responsáveis pela transmissão do carnaval.

Uma narração rica em detalhes faz com que o telespectador repare mais em cada momento, em cada situação mencionada. Quando citamos o detalhe prendemos a atenção da pessoa. Conquistamos seu olhar, aguçamos sua percepção o que traz uma espécie de energia e sentimento para o ato de olhar, de ver.

Uma simples orientação faria com que a transmissão naturalmente ficasse mais inclusiva e prazerosa para todos que a assistiam.

Igualmente em outros temas como as calçadas, quando você facilita o acesso para as pessoas com deficiência, beneficia a vida da população como um todo. Quem sabe no próximo carnaval…

Organizações MMM: masculinas, masculinizadas e masculinizantes

Por Reinaldo Bulgarelli

Lidando com a realidade atual, ainda temos um número superior de homens em todos os níveis no mercado de trabalho. Segundo a pesquisa do Instituto Ethos e IBOPE “Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil”, de 2010, tínhamos 33% de mulheres no quadro funcional, 27% na supervisão, 22% na gerência e 14% no quadro executivo. Temos, portanto, organizações masculinas.

As organizações masculinas, por sua vez, estabelecem e cristalizam um jeito de trabalhar, falar, se vestir, mandar, obedecer, sentir, analisar, planejar e olhar a realidade que são também masculinas. Os rituais da empresa são masculinizados e tendemos a dar valor a quem pensa, sente, é e age como homem. As organizações são masculinizadas no seu jeito de pensar, sentir, ser e agir.

Organizações masculinas e masculinizadas exercem um poder de coerção imenso sobre todos para que a masculinidade esteja presente o tempo todo. Mesmo quem não é masculino ou masculinizado, tem que se transformar para ser aceito, tolerado e para sobreviver na organização. As organizações são, desta forma, masculinizantes.

Organizações MMM são estressantes até mesmo para os homens. Tanta testosterona faz mal para a saúde de todos, dos negócios e da sociedade. O triste desta história, além do óbvio, é que os homens não estão se preparando para viver a transição. Em breve teremos organizações tão masculinas quanto femininas. Tomara que seja também no jeito de pensar, sentir, ser e agir. De todo jeito, quanto mais mulheres chegam ao mercado de trabalho, mais transformações acontecem em suas vidas, em suas famílias, na sociedade e sua maneira de pensar, sentir, ser e agir.

Valorizar a diversidade é atuar de forma planejada para transformar as nossas organizações, neste caso, em espaços tão masculinos quanto femininos para dar conta de uma realidade que está, aliás, se tornando mais e mais feminina. Hoje, segundo o IBGE, as mulheres já são maioria na sociedade brasileira. O poder do machismo sobre homens e mulheres não se dilui com a mudança demográfica, mas tende a passar por transformações. É fundamental enfrentar esse machismo para que as organizações deixem de ser também masculinizadas e masculinizantes.

As mulheres estão percebendo mais as mudanças porque a chamada minoria observa cada gesto dos poderosos para poder sobreviver, resistir, vencê-los ou até imitá-los, na pior das hipóteses. Eles, por sua vez, olham para o horizonte dos que estão por cima e podem se iludir na impressão de que nada há para ser modificado em seu status. Organizações que valorizam a diversidade pensam nisso tudo e em como criar espaços de diálogo para que todos passem pelas transformações como sujeitos ativos desta história e não como expectadores ou até mesmo atropelados por ela. Falar no assunto é uma forma de perceber as mudanças e tudo que ela implica no jeito de pensar, sentir, ser e agir.

Você, homem ou mulher, tem pensado sobre isso? Sua vida, seus amores, seu trabalho, os negócios de sua organização, a sua sociedade, as relações, enfim, tudo está passando por uma transição que afeta diretamente a sua existência. Um mundo FFF será tão chato como este mundo MMM que construímos. Valorizar a diversidade implica construirmos juntos, homens e mulheres, uma sociedade MF onde a complementaridade nos leve rapidamente e com maior qualidade para um mundo mais sustentável. Alguém tem dúvida de que o mundo sustentável não será MMM?