Filiação partidária voluntária: o mínimo para a democracia

Por Humberto Dantas

Entre os dados do site do Tribunal Superior Eleitoral e as pesquisas de opinião pública existe uma grande distância quando o assunto é filiação partidária. As informações oficiais, mantidas em termos percentuais sem grandes oscilações há anos, mostram que cerca de 10% dos eleitores brasileiros estão formalmente inscritos em alguma legenda. Por sua vez, pesquisa da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) realizada pelo Instituto Vox Populi registrava 5% de filiação declarada em 2008. Como compreender tamanha inconsistência?

Em 2007, durante ciclo de debates sobre reforma política que participei como comentarista na Federação do Comércio de São Paulo utilizei o dado oficial para construir um argumento e arranquei risos de um influente deputado federal do Partido dos Trabalhadores. Em particular, ao término do evento, ele me confidenciou: “não queira saber como muitos desses cidadãos são filiados”. O assunto me incomodou.

Meses mais tarde, em conversa com um empresário amigo, compreendi melhor a realidade: “foi assim que eu comecei a enriquecer. Um velho político de São Paulo me pagava para eu filiar moradores de um condomínio de classe média na zona norte. Levei tanta gente pro PMDB que ele me deu um apartamento. Na data da convenção interna o combinado era levar esse povo para votar. Nele, é claro, que conquistou o partido”, confidenciou-me. Assim, em grande parte das vezes a corrida pela filiação não tem como tiro de partida o interesse espontâneo de um cidadão, mas sim aspectos clientelistas e capazes de gerar poder para quem detém, sob seus domínios, quantidade expressiva de votos capazes de alterar a lógica interna das legendas. Nesse universo, o que não faltam são os tradicionais laranjas.

Tal questão enfraquece o valor, por exemplo, da adoção de um sistema de lista fechada em eleições proporcionais em que a ordem dos candidatos fique a critério dos filiados. Isso sem falar nas listas de meros simpatizantes, que não são filiados, e legalmente devem concordar em abaixo-assinados com o surgimento de uma nova legenda. No documento do recém-criado PSD até mortos apareceram segundo a imprensa.

Outro gesto que perde sua legitimidade são as prévias partidárias para a escolha de candidatos. O PSDB, concentrado nesse movimento na cidade de São Paulo, sentiu na pele o fato de ter entre seus membros pessoas que sequer sabem da existência do partido ou do gesto de filiação. Reportagens veiculadas há algumas semanas atestam que diversos “associados” entrevistados não sabiam que faziam parte dos quadros da organização. Diante dos exemplos apresentados, é absolutamente possível compreender que a prática, disseminada nacionalmente entre os mais diferentes partidos, é um atestado do quanto estamos distantes da democracia como um valor cultural e cotidiano. Para vivê-lo precisamos destronar os reizinhos locais, que exploram a falta de conhecimento alheio, adicionando a seus pretensos capitais políticos a ignorância como sustentáculo de uma moeda danosa à vida das legendas.

Serra entra. Chalita sai?

Por Guilherme Bara

Mais uma vez, depois de negar incisivamente, José Serra confirma que será candidato à prefeitura de São Paulo.

Além de fortalecer o PSDB na corrida municipal, a entrada de Serra na disputa pode mexer em situações que eram dadas como definitivas na composição partidária para as eleições.

Com a sinalização de diversos partidos no sentido de fazer parte da coligação que dará sustentação à campanha do nosso recém-candidato, o PT vê o sinal vermelho acender e deve retomar a carga em cima do PMDB a fim de demover Gabriel Chalita de disputar as eleições. O objetivo é aumentar a aliança em torno do ex Ministro da Educação Fernando Haddad.

O momento é favorável para a carga petista, já que Chalita passa por momento turbulento com parte de sua equipe.

Quem esfrega as mãos é o presidente do PMDB, Michel Temer, que vê situação favorável para dar mais uma barganhada e abocanhar novos espaços no governo federal.

Outro partido que também deve ser colocado contra a parede é o PC do B, que tem Netinho de Paula como seu pré-candidato.

A idéia petista seria evitar uma desvantagem de Haddad no tempo de TV em relação ao tucano. Desta forma a eleição estaria, mais do que nunca, polarizada entre os dois partidos que vem rivalizando as principais disputas eleitorais.

Carnaval, eu também quero.

Por Guilherme Bara

Apontado por muitos como um dos maiores espetáculos da Terra, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro encantou mais uma vez os milhões de telespectadores que puderam acompanhar em cada detalhe a passagem das 13 agremiações do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí.

Após o jantar, liguei a televisão a fim de curtir tudo que as escolas trariam para prender a atenção do público. O enredo, os carros alegóricos e as fantasias, as coreografias, os personagens e tudo mais.

Quando as escolas começaram a passar, percebi que minha expectativa seria frustrada. Não pela falta de talento, criatividade ou beleza por parte das concorrentes ao título do carnaval, e sim, porque as maravilhas apresentadas seriam privadas as pessoas que como eu são cegas ou tem dificuldade visual.

Os apresentadores falavam dos carros e das alegorias com um superficial toque de descrição, insuficiente para uma boa compreensão por parte das pessoas que não conseguiam ver as imagens. A descrição era complementar.

A partir da segunda escola, perdi a atenção no desfile e comecei a imaginar quais seriam os argumentos para convencer os apresentadores a detalhar a descrição das imagens. As pessoas cegas poderiam ter acesso e usufruir de uma maneira mais intensa do desfile. Pessoas idosas e com baixa visão, além de pessoas com dislexia também se beneficiariam.

E quanto às pessoas que não tem dificuldade alguma em enxergar? Fiz-me esta pergunta, porque, infelizmente apenas esta resposta poderia ser capaz de sensibilizar os responsáveis pela transmissão do carnaval.

Uma narração rica em detalhes faz com que o telespectador repare mais em cada momento, em cada situação mencionada. Quando citamos o detalhe prendemos a atenção da pessoa. Conquistamos seu olhar, aguçamos sua percepção o que traz uma espécie de energia e sentimento para o ato de olhar, de ver.

Uma simples orientação faria com que a transmissão naturalmente ficasse mais inclusiva e prazerosa para todos que a assistiam.

Igualmente em outros temas como as calçadas, quando você facilita o acesso para as pessoas com deficiência, beneficia a vida da população como um todo. Quem sabe no próximo carnaval…

Organizações MMM: masculinas, masculinizadas e masculinizantes

Por Reinaldo Bulgarelli

Lidando com a realidade atual, ainda temos um número superior de homens em todos os níveis no mercado de trabalho. Segundo a pesquisa do Instituto Ethos e IBOPE “Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil”, de 2010, tínhamos 33% de mulheres no quadro funcional, 27% na supervisão, 22% na gerência e 14% no quadro executivo. Temos, portanto, organizações masculinas.

As organizações masculinas, por sua vez, estabelecem e cristalizam um jeito de trabalhar, falar, se vestir, mandar, obedecer, sentir, analisar, planejar e olhar a realidade que são também masculinas. Os rituais da empresa são masculinizados e tendemos a dar valor a quem pensa, sente, é e age como homem. As organizações são masculinizadas no seu jeito de pensar, sentir, ser e agir.

Organizações masculinas e masculinizadas exercem um poder de coerção imenso sobre todos para que a masculinidade esteja presente o tempo todo. Mesmo quem não é masculino ou masculinizado, tem que se transformar para ser aceito, tolerado e para sobreviver na organização. As organizações são, desta forma, masculinizantes.

Organizações MMM são estressantes até mesmo para os homens. Tanta testosterona faz mal para a saúde de todos, dos negócios e da sociedade. O triste desta história, além do óbvio, é que os homens não estão se preparando para viver a transição. Em breve teremos organizações tão masculinas quanto femininas. Tomara que seja também no jeito de pensar, sentir, ser e agir. De todo jeito, quanto mais mulheres chegam ao mercado de trabalho, mais transformações acontecem em suas vidas, em suas famílias, na sociedade e sua maneira de pensar, sentir, ser e agir.

Valorizar a diversidade é atuar de forma planejada para transformar as nossas organizações, neste caso, em espaços tão masculinos quanto femininos para dar conta de uma realidade que está, aliás, se tornando mais e mais feminina. Hoje, segundo o IBGE, as mulheres já são maioria na sociedade brasileira. O poder do machismo sobre homens e mulheres não se dilui com a mudança demográfica, mas tende a passar por transformações. É fundamental enfrentar esse machismo para que as organizações deixem de ser também masculinizadas e masculinizantes.

As mulheres estão percebendo mais as mudanças porque a chamada minoria observa cada gesto dos poderosos para poder sobreviver, resistir, vencê-los ou até imitá-los, na pior das hipóteses. Eles, por sua vez, olham para o horizonte dos que estão por cima e podem se iludir na impressão de que nada há para ser modificado em seu status. Organizações que valorizam a diversidade pensam nisso tudo e em como criar espaços de diálogo para que todos passem pelas transformações como sujeitos ativos desta história e não como expectadores ou até mesmo atropelados por ela. Falar no assunto é uma forma de perceber as mudanças e tudo que ela implica no jeito de pensar, sentir, ser e agir.

Você, homem ou mulher, tem pensado sobre isso? Sua vida, seus amores, seu trabalho, os negócios de sua organização, a sua sociedade, as relações, enfim, tudo está passando por uma transição que afeta diretamente a sua existência. Um mundo FFF será tão chato como este mundo MMM que construímos. Valorizar a diversidade implica construirmos juntos, homens e mulheres, uma sociedade MF onde a complementaridade nos leve rapidamente e com maior qualidade para um mundo mais sustentável. Alguém tem dúvida de que o mundo sustentável não será MMM?