Aceitar a deficiência

Por Guilherme Bara

Quando perdemos a visão ao longo da vida, principalmente na adolescência, muitas vezes, sofremos da principal barreira para nos adaptarmos e convivermos bem com esta nova situação, o autopreconceito.

As pessoas com deficiência adquirida não estão livres de um dos sentimentos inerentes ao ser humano: o preconceito.

Projetamos na sociedade nossa própria visão em relação à deficiência. Nossa dificuldade de aceitar o diferente, de evidenciar uma dificuldade, de aceitarmos as pessoas fora do padrão.

Criados em uma cultura excludente, em que o mundo é protagonizado por super homens e mulheres, muitas vezes demoramos para encontrar o caminho alternativo para fazer as coisas com naturalidade. Ler usando braille, pedir ajuda para encontrar algo ou andar com o auxílio do condutor são atitudes que negamos em prol de uma suposta normalidade, de um jeito aceito pela sociedade e por nós.

Recusamos ajuda, dizemos não ao recurso, abrimos mão de ferramentas por considerarmos símbolos de uma situação de inferioridade, de incapacidade.

Procuramos o padrão para sermos aceitos, para aceitarmos a nós mesmos.

Insistimos em fingir que somos o que não somos.

Mas tem uma hora, ainda bem, que dá tudo errado. Tropeçamos feio no degrau que fingimos ver, falamos a coisa certa para a menina errada, entramos na porta que estava fechada. Só aí sentimos a dor da mudança, uma dor profunda que faz a gente parar para refletir, parar para procurar um novo caminho. Faz com que pensemos se somos maiores ou menores que os símbolos dos quais insistimos em fugir.

Mais cedo ou mais tarde, com menos ou mais dor, nós encontramos o caminho. Percebemos que maior que qualquer símbolo é a pessoa e suas atitudes; percebemos que não enganávamos ninguém, e aí começamos a assumir nossa condição e os recursos para que tenhamos plenitude em nossas ações.

Quem dependia de alguém para ler o texto, passa a usar o Braille ou o leitor de tela; no lugar de pedirmos ajuda para ir até a esquina, andamos com autonomia usando uma bengala; perguntamos onde está ao invés de disfarçarmos para procurar. Quando assumimos os recursos nos damos a oportunidade de sermos capazes.

O primeiro passo para a inclusão é incluirmos a nós mesmos, já que a aceitação pelos outros passa, inicialmente, pela nossa autoaceitação.

Paixão

Por Soninha Francine

Italianos tem a fama – justificadíssima – de serem barulhentos. Mas a família do pai (o mais velho de nove irmãos) só fazia escândalo nas ocasiões festivas – aniversário, Natal, casamento. Aí cantavam (cantam) em altos brados, envergonhando os adolescentes (rs). Nos domingos “normais”, em que nos reuníamos todos para o almoço na casa da vó Julieta, falava-se em tom de voz moderado. Até porque sempre tinha uma criança pequena dormindo no quarto pegado à sala, então quando alguém erguia a voz a mãe desesperada chiava (pssssssiu) com medo de perder aqueles minutos de sossego…

Já a família da minha mãe, portuguesa, era muito ruidosa. Ô gente que fala alto! (Mania que eu trago nos genes…). As conversas na copa, ao redor da mesa, eram tão exaltadas que meu tio brincava “qualquer dia os vizinhos chamam polícia, pensando que estamos nos pegando”. Mas aqui e ali eles deviam ouvir as gargalhadas e perceber que era só um jeito exagerado de ser.

Mas havia ocasiões em que era briga mesmo. Alguns temas ouriçavam os ânimos: sexualidade (minha mãe teimava em discutir com minha avó a igualdade de direitos entre homens e mulheres, assegurando que eu e meu irmão seríamos criados com as mesmas informações e valores em relação à vida sexual), política…

Quando minha mãe começava a falar sobre não impor que eu me casasse virgem, a discussão só não ia mais longe porque meus avós acabavam saindo da mesa, vexados. Mas quando era política, ninguém arredava pé. Pensando bem, não era difícil minha mãe recolher as coisas furiosa, puxar os filhos e ir embora de volta pra casa, espumando.

Eu ficava embasbacada com aquelas reações. Via-se que pai e mãe ficavam com muita raiva um do outro. Eles falavam de tantas coisas que eu não entendia, o que tornava a cena mais intrigante.

Mais tarde eu criava coragem de perguntar para minha mãe: “O que é subversivo? E comunista? E censura? Tortura? Repressão? Golpe? Carestia? Anistia?”. Tinha uns seis anos, ouvia as explicações com muito interesse e… ficava do lado da minha mãe. Como meu avô poderia acreditar no governo e concordar com as coisas que eles faziam?

Meu avô era um homem muito correto, muito caxias. Como outros tantos, chegou de Portugal paupérrimo. Puxou carroça de pão e foi subindo, subindo, até ser dono de padaria. Nenhum nababo, mas com vida confortável. Era muito grato ao país que o acolheu e estendia esse sentimento ao seu governo, suas autoridades… Entendia oposição como desrespeito, ingratidão. Era mais “patriota” do que qualquer brasileiro nato… O ufanismo do “Eu te amo meu Brasil”, “Ame-o ou deixe-o”, caíam bem para ele. E acreditava nos militares; temia que comunistas invadissem sua casa e confiscassem o que ele havia amealhado ao longo de décadas…

Minha mãe, por sua vez, se indignava com as mentiras – “Esses filhos da p. vão dizer que o Herzog SE MATOU? Desgraçados”. Com as músicas censuradas. Com o exílio. Com a opressão e a repressão. Eu me identificava muito com sua revolta, sua comoção.

Ela era uma professora de inglês, classe média, que ia de casa para o trabalho e nada mais. Nunca fez parte de um movimento organizado (a não ser décadas mais tarde, quando ajudou a organizar a Associação de Professores da Cultura Inglesa ). Não carregou faixas, não pintou frases em muros, não participou de reuniões clandestinas, não foi a passeatas.

Mas dentro de casa, na frente da televisão, folheando revistas, ela respirava e transpirava política. Ora erguia a voz, ora cobria a boca com as mãos horrorizada, triste, chocada. Nesse ambiente, com essas emoções, com as explicações que justificavam o arrebatamento, cresci gostando de política. Lendo jornais – matérias, editoriais, cartas dos leitores, colunas. Lendo as entrelinhas das Cartas da Mãe do Henfil na última página da Istoé. Decifrando as metáforas nas músicas do Chico. E ficando fula da vida (há uns vinte anos não se usa essa expressão rs) com o que eu via na rua (as favelas na beira da Marginal Tietê… uma delas, se não me engano, era chamada de “Ordem e Progresso”), nos livros, nos filmes (a seca, a fome, a miséria).

Resultado disso tudo foi amor e ódio à política. O ódio é compartilhado com muita gente, mas o amor, bem mais raro, “exótico”, é a minha reação ao ódio… Não aguento ficar apenas lendo, ouvindo, olhando. Às vezes desanimo, penso em mandar tudo à m., cuidar só da minha vida. Falar de música, de esporte, participar de programas de debates na TV a cabo… Mas quem disse que eu aguentaria?

Tem gente que, com ódio, vai para a guerra. Minha ira, minha paixão, me levam a “pegar em armas” – as armas sofisticadas que o ser humano desenvolveu para resolver conflitos, divergências, impasses, reunidas sob o maltratado título de “política”. Eu gosto de política. Eu sou política e tenho orgulho de dizer.

Os 4 Desafios Para as Empresas Incluirem Colaboradores com Deficiência

Por: Guilherme Bara

100 mil vagas não preenchidas só no Estado de São Paulo

 A Lei de cotas, vigente desde 1991, vem contribuindo para a entrada de milhares de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, principalmente nos últimos anos, quando sua fiscalização foi intensificada.

Na última década o número de contratações nas empresas auditadas pelo Ministério do Trabalho passou de 601 para mais de 100.000 só no Estado de São Paulo.

Mesmo com este significativo avanço ainda outras 100.000 vagas devem ser preenchidas para que as empresas paulistas cumpram a totalidade de suas cotas.

Com esta lei, o Governo federal passou a responsabilidade da inclusão econômica para as empresas.

Se por um lado ainda encontramos empresas que se furtam do dever de cumprir as cotas por motivos baseados em argumentos sem fundamento, claramente feitos com a intenção de fugir de suas responsabilidades, por outro, uma parcela significativa do setor corporativo vem fazendo sua parte, seja na contratação, que é o mais importante, seja na capacitação.

Atualmente, a responsabilidade social posta como ação essencial para os negócios das grandes empresas e a legislação sobre as cotas formam um ambiente favorável, porém ainda não suficiente para chegarmos perto de preenchermos as vagas abertas pela legislação.

Quatro desafios precisam ser vencidos para acelerarmos de forma acentuada este processo:

 O primeiro é a eliminação das barreiras físicas. Tanto os espaços corporativos como os espaços de uso público oferecem barreiras arquitetônicas para boa parte das pessoas com deficiência. Precisamos eliminar escadas, sonorizar elevadores, além de termos um transporte adaptado e calçadas acessíveis para que este grupo possa exercer com dignidade seu direito de trabalhar.

 O segundo é a falta de informação por parte dos gestores das empresas. Ainda encontramos muitas empresas que não conhecem os recursos disponíveis para diminuir ou em alguns casos até eliminar a incapacidade de uma pessoa fazer uma tarefa por causa de sua deficiência. Programas de leitura de tela, mouses e teclados adaptados são exemplos de tecnologia já disponíveis.

 O terceiro desafio é eliminarmos as barreiras culturais. Muitas pessoas se sentem impotentes quando encontram uma pessoa cega ou mesmo em uma cadeira de rodas.

Por não saber como interagir, as pessoas, muitas vezes preferem evitar um contato direto, o que prejudica bastante o processo de inclusão, cerceando esta pessoa da natural interação, fundamental para otimizar seu desempenho no trabalho.

Esta é uma barreira invisível e cruel que pode ser vencida com sensibilizações adequadas em relação ao tema e principalmente com o convívio.

 A quarta barreira é considerada pelas empresas a mais difícil de ser transposta. É a baixa qualificação educacional e cultural da maioria das pessoas com deficiência.

Alguns números confirmam esta impressão das corporações. Enquanto a ONU aponta que 10% da população têm algum tipo de deficiência, apenas 1,77% das vagas do ensino fundamental são preenchidas por alunos com deficiência.

Já no ensino médio e superior a incidência cai para 0,14% e 0,12% respectivamente.

Embora empresas tentem identificar vagas compatíveis ao perfil de qualificação, a falta de postura corporativa por boa parte dos candidatos é apontada como uma barreira, muitas vezes, intransponível para o recrutamento.

Enormes investimentos em qualificação técnica se perdem devido a este abismo cultural que existe entre uma parcela das pessoas com deficiência e o ambiente corporativo.

Os dados educacionais que citei anteriormente justificam este quadro.

 Precisamos trabalhar para vencermos estes desafios, porém não podemos esperar um mundo ideal para intensificarmos a inclusão de colaboradores com deficiência nas empresas. Muitas vezes a presença deste funcionário no ambiente de trabalho age como o grande catalisador de todo este processo.

A Europa e as pessoas com deficiência

Por Guilherme Bara

Esta semana escrevo da Alemanha, onde estou a trabalho. Aproveito o gancho para falar um pouco do processo de inclusão na Europa. As duas grandes guerras acontecidas em território europeu fizeram que muitos combatentes voltassem para casa com algum tipo de deficiência física ou sensorial. Assim, a imagem da pessoa com deficiência na Europa é, muitas vezes, associada ao herói de guerra, diferente do Brasil onde associamos as pessoas cegas ou em cadeira de rodas a pedintes nos faróis.

Isto explica em parte a diferença entre o respeito que o “velho mundo” tem em relação ao tema e o Brasil.

As rampas, sinalizações, e demais adaptações são freqüentes em diversos locais nas cidades européias. A diferença é flagrante quando comparamos com as cidades brasileiras, sejam as capitais, ou mesmo nas pequenas cidades do interior, onde o conceito de acessibilidade parece distante. Temos então na Europa um ambiente acessível e inclusivo para as pessoas com deficiência? Acessível sim, inclusivo, nem tanto.

Se o respeito é bem maior que no Brasil, a inclusão, todavia, é um desafio por aqui. O respeito existe, porém as sete décadas que se passaram da última guerra mundial faz com que as novas gerações comecem a se distanciar dos “heróis de guerra”e mesmo com o respeito ao tema e aos antepassados, a dificuldade em um convívio natural entre as pessoas com e sem deficiência está longe do ideal.

Na maioria dos países o conceito é de integração, isto é, criar condições de estudo e de trabalho para os cidadãos com deficiência, porém não, necessariamente, no mesmo ambiente onde os trabalhadores e estudantes sem deficiência freqüentam. A sociedade, desta forma, integra, porém não inclui. Conceitos tão parecidos, mas que fazem bastante diferença nas condições de real acesso das pessoas com deficiência.

Se aqui as pessoas não enfrentam tantas barreiras físicas como no Brasil, enfrentam a as barreiras invisíveis para participar dos grupos sociais “regulares”, o que tem como conseqüência a formação de uma sociedade paralela e em certo grau, segregada. Se a Europa está bem adiantada em relação à acessibilidade arquitetônica, tem que avançar e rever alguns conceitos para ser uma região, de fato, inclusiva.

Empresas, diversidade e a questão do preso

Por Reinaldo Bulgarelli

“O que as empresas podem fazer pela reabilitação do preso” é o título de uma publicação do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, lançado em 2001 e produzido por Roberto da Silva, pedagogo, mestre e doutor em educação. O prefácio foi de José Pastore, professor da USP, especialista em Sociologia do Trabalho e com vários livros publicados, incluindo o recente “Trabalho para Ex-Infratores”, da Editora Saraiva, 2011.

A publicação do Instituto Ethos está disponível no site da organização e a publicação do professor José Pastore pode ser encontrada nas livrarias.

Apesar da publicação do Ethos datar de 2001, a pesquisa recente que realizei para o Instituto Ethos junto às empresas que participam do estudo “Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil”, também do Instituto Ethos em parceria com o IBOPE, nos diz que apenas 6% delas consideram ex-presidiários em suas ações de diversidade e inclusão.

O “Perfil” de 2010 está disponível no site. Já a pesquisa que realizei pela Txai está disponível no capítulo “Evolução das Práticas Empresariais para a Valorização da Diversidade” da publicação “Empresas e Direitos Humanos na Perspectiva do Trabalho Decente – Marco de Referência”, de responsabilidade de Ana Letícia Silva e Mariana Parra, disponível no site do Instituto Ethos.

O tema dos presos e dos egressos ou ex-presidiários, todos termos questionáveis e em constante processo de construção e reconstrução conforme a dinâmica social estabelece, parece que não entrou efetivamente na agenda do mundo empresarial, apesar de sua relevância, urgência e impactos para a vida de todos no país.

É por isso que o Secretário Municipal do Desenvolvimento Econômico e do Trabalho (SEMDET), Marcos Cintra, propôs a realização do 1º Seminário “Oportunidades de Trabalho, Emprego e Renda para Egressos dos Sistema Prisional na Cidade de São Paulo”, a ser realizado ainda em 2012. Mais adiante volto a escrever sobre os resultados deste evento no meu blog “Diversos Somos Todos”. Pelo site da SEMDET é possível saber quando o evento será realizado. A Txai, minha empresa de consultoria, está realizando o apoio técnico do Seminário e eu farei a mediação do diálogo com os convidados.

Como sempre tem feito nestes seminários que tratam de variados temas de diversidade com sua interface com trabalho, emprego e renda, o Secretário Marcos Cintra deverá fazer a abertura situando o tema na agenda da pasta e da sociedade brasileira. Ele tem feito discursos históricos nestas ocasiões, mas que também demonstram que a sociedade amadureceu no tratamento de temas complexos. Já discutimos em outros seminários a questão da mulher, da pessoa com deficiência, da juventude, do negro, da orientação sexual e identidade de gênero.

Na plateia, como nos outros seminários, teremos os especialistas no tema, ativistas, profissionais do setor público e muitos representantes de empresas, tanto daquelas que já atuam com a questão prisional em geral, como aquelas (grande maioria) que querem entender qual é o tema, o que pode ser feito e quais as possibilidades para saírem de lá com uma proposta concreta nas mãos (e no coração).

O Seminário é importantíssimo porque todos os especialistas indicam a importância do trabalho, emprego e renda como elementos essenciais na reinserção do preso no convívio social em outros patamares e com outras condições, sobretudo aqueles 69% que têm ensino fundamental incompleto ou completo, sem falar nos 8% de analfabetos e os 10% com ensino médio incompleto. Estes dados estão na publicação do professor José Pastore, citada acima (página 24).

Ainda segundo José Pastore, 40 mil presos estavam em programas de educação e capacitação técnica, quando havia no total, segundo dados oficiais de 2009, 480 mil pessoas encarceradas nos presídios. Os dados devem ter mudado de lá para cá, mas essa proporção talvez tenha permanecido.

“Que razões, entretanto, teriam o investidor e o empresário para estreitar suas relações com uma prisão e lá investir seu capital financeiro e humano? Da mesma maneira, que razões teriam seus executivos e funcionários para dedicar parte de seu tempo, na forma de trabalho profissional ou voluntário, dentro de um presídio, atendendo pessoas que foram ali recolhidas exatamente por violarem as regras de convivência social?”, pergunta o manual do Instituto Ethos.

No seminário, espera-se responder a esta questão e também a muitas outras relacionadas ao cenário atual dos presos e egressos no país. O que tem sido realizado, quais são as condições para as empresas se envolverem com o tema e o que podem realizar para contribuir de maneira socialmente responsável para com as comunidades locais e a sociedade brasileira?

Algumas afirmações das publicações citadas devem estar presentes no diálogo, como a citada importância da capacitação profissional e do trabalho, mas também a questão das práticas serem realizadas na perspectiva da responsabilidade social e não do assistencialismo. A responsabilidade social das empresas pode contribuir decisivamente para quebrar um círculo vicioso no qual a formação de pessoas estigmatizadas e segregadas nada contribui para um presente e um futuro sustentáveis.

Diz o citado manual do Instituto Ethos que “somente uma ação integrada, que reúna esforços de toda a sociedade e promova a reflexão e a discussão de seus diversos aspectos, permitirá a descoberta de soluções.” É isto que estamos fazendo com a realização deste seminário. Participe!

Quem cresceu menos na América do Sul?

Por Guilherme Bara

Qual país você acha que menos cresceu na América do Sul em 2011? A Bolívia de Morales, a Venezuela de Chaves ou mesmo o país dos “ermanos” onde os brasileiros costumam fazer a festa nas viagens quase de “bate e volta”? Para surpresa de muitos e contrariando os prognósticos surreais dos representantes do lulopetismo, foi o Brasil!! Isto mesmo, a sexta economia do mundo, cantada em verso e prosa pela comunicação oficial ficou na rabeira do crescimento sul americano. Em fins de 2010 Lula, apoiado no crescimento de 7,5% da economia, reelegeu, com um certo aperto sua sucessora ao Palácio do Planalto. Inúmeras medidas foram tomadas para garantir o dinheiro no bolso do eleitor, fator este que mais influencia na decisão de voto do brasileiro e, diga-se de passagem, da maioria dos povos do mundo. Incentivos fiscais para a indústria automotiva e para os produtos da linha branca, e uma injeção de crédito impulsionaram o mercado interno fazendo que atingíssemos nosso melhor resultado em décadas.

O ano passou, Lula comemorou a vitória de sua candidata, mas a conta ficou. As medidas se mostraram eficazes, porém com efeitos de curto prazo o que confirma a análise de muitos que vêem no governo petista uma intenção de implementar um projeto de poder ao invés de um projeto de país. Nos últimos dias saiu o resultado do PIB de 2011. Contrariando os prognósticos do Ministro da Fazenda Guido Mantega, o Brasil teve o mais baixo crescimento entre os países da América do Sul. Isto mesmo, países como Bolívia, Venezuela e Equador tiveram um crescimento mais robusto que o tão alardiado “país das maravilhas”.

Fica evidente que boa parte do crescimento que impulsionou a candidatura Dilma em 2010 foi sustentada por ações que deram espaço para um assustador crescimento da inflação, o que fez o Banco Central tomar medidas anticíclicas, isto é que segurassem o dinamismo da economia a fim de corrigir algumas medidas irresponsáveis dos últimos anos do governo Lula.

Em tempos onde sustentabilidade é o tema da vez na sociedade, percebemos que este conceito é pouco valorizado pelo governo federal, que tem em seu radar uma ambição bem definida de perpetuação no poder, deixando de lado,muitas vezes, a idéia de um pais preparado para crescer agora e sempre.

Qual é sua opinião? – Ciclofaixas

O uso de bicicletas como meio de transporte tem despertado a atenção da população e das autoridades.

Alguns formadores de opinião defendem a criação das ciclofaixas (faixas exclusivas para bicicletas) a fim de incentivar e facilitar a vida do crescente número de pessoas que usam a bicicleta para ir ao trabalho.

Você é a favor da criação das ciclofaixas?

Quem deve representar as pessoas com deficiência?

Por: Guilherme Bara

 Em abril de 2005, o então Prefeito José Serra criou a primeira Secretaria municipal da pessoa com deficiência do Brasil. Para comandar a pasta foi convidada Mara Gabrilli, até então desconhecida psicóloga presidente da ONG PPP (Projeto Próximo Passo).

 O ineditismo da ação somado ao enorme carisma de Mara, tetraplégica desde 1994 devido a um acidente na Rodovia Rio-Santos, contribuiu para que o tema saísse das revistas especializadas e conquistasse um espaço na mídia regular.

 Nestes sete anos, várias outras prefeituras criaram órgãos semelhantes, inclusive o estado de São Paulo, também com Serra, hoje tem a Secretaria de Estado dos direitos da pessoa com deficiência.

 O gesto de criar uma Secretaria traz um ganho que vai além das ações pontuais desta pasta. Sinaliza-se para toda a equipe de governo e para sociedade que o assunto passa a ser prioridade.

 A Secretaria torna-se um importante símbolo que traz para o centro do debate o tema da inclusão.

 Este importante fato social perde boa parte de seu impacto quando as pastas municipal e estadual da pessoa com deficiência passam a ser dirigidas por pessoas sem deficiência, como acontece atualmente no estado e no município de São Paulo.

 Sem entrar no mérito da qualidade das gestões, o fato das pessoas com deficiência não estarem à frente destes processos, vem no sentido contrário de um movimento que visa diferenciar os conceitos de deficiência e incapacidade.

 Entre os 10% da população que, segundo a ONU, tem algum tipo de deficiência, o Governador de São Paulo e o Prefeito da capital não encontraram ninguém, que segundo eles tem capacidade de liderar politicamente as ações de governo para a inserção social deste enorme segmento.

 O cargo de Secretário é, antes de tudo, uma posição política que no caso de representar um grupo social adquire também uma importante conotação simbólica que serve como sensibilizador da população em relação ao tema.

 Isto fica evidente quando comparamos a visibilidade que a Secretaria da cidade de São Paulo tinha quando era liderada pela Mara Gabrilli com as últimas duas gestões, comandadas por Renato Baena, este por indicação da própria Mara, e atualmente pelo “Verde” Marcos Belizário, este com muito pouco contato com a causa até o momento que assumiu a pasta, ambos sem deficiência.

 Sem fazer juízo de valor das atuais gestões, fica o alerta para a mensagem subliminar passada pelos governos, que as pessoas com deficiência são incapazes de liderar seu próprio processo de inclusão.

Se sobrou sensibilidade aos governantes quando criaram a pasta que prioriza o tema da acessibilidade, para alguns deles, faltou coerência na escolha de seus titulares.

 

 

 

Quando devemos dizer basta?

Por: Humberto Dantas

O Brasil carece de força suficiente para dizer basta. E não me refiro aqui à fortaleza associada à política: nesse campo chego a suspeitar que somos otários. Quero falar dos consumidores brasileiros, que não conseguem ser bem atendidos em aspectos básicos. Vou citar dois exemplos que devem servir para muitos dos cidadãos de classe média desse país. Outros infinitos poderiam ser ofertados.

Tenho um celular pós-pago que me consome cerca de R$ 3,0 mil por ano. Para usuários agressivos o valor é pequeno, mas é imensamente maior que a média de gastos nacionais com esse tipo de serviço. Possuo um plano com bons recursos: internet, taxa fixa para recebimento de ligações em roaming nacional, torpedos ilimitados e minutos gratuitos para números da operadora que escolhi. A web começou a funcionar faz poucos meses em minha linha, fruto de ANOS de reclamações que não resultavam em absolutamente nada. Queixas na ANATEL foram várias. Até que um dia funcionou. Detalhe: não são poucas as horas da semana que em plena cidade de São Paulo fico sem sinal, sem internet, sem qualquer contato telefônico. E o que faço para resolver tudo isso? Aguardo para ser atendido, abro reclamações na agência responsável pelo serviço e me desgasto. Tanto que resolvi parar de reclamar, pois estava me fazendo mal. Fui vencido pela insistente incapacidade de a TIM me ofertar aquilo que me vende. Sou vítima de algo que sequer existia quando nasci e hoje me aprisiona profissional e familiarmente.

Viajo de avião com certa constância. Muito mais do que eu gostaria, mas não posso me queixar, pois adoro o que faço profissionalmente, e quando quero relaxar de verdade gosto de ir para longe. Pois bem, faz alguns meses que não me lembro o que é decolar ou aterrissar em Congonhas (São Paulo) sem passar algum tipo de aborrecimento. Na última semana a Gol arremeteu e a TAM passou pelo aeroporto e nos levou para Santos, para uma visita de reconhecimento aéreo ao mar enquanto reconfirmava a autorização de pouso já anunciada aos passageiros. Para sairmos do chão, atrasos mínimos de 15 minutos, que são sempre tolerados, sendo a imensa maioria superior a isso. Em São José do Ripo Preto é raro tomar um voo na hora, e o aeroporto não oferece a mínima estrutura. Em Cumbica as esteiras atrasam cerca de 40 minutos para liberar malas. Em Viracopos, a área de embarque num dia de frio e chuva nos lembra um parque aquático: impossível sair seco. Em Natal-RN goteiras inundam a área de embarque internacional, que não comporta meio avião de grande porte. Em Florianópolis o aeroporto é pequeno e mal organizado. O governo disfarça, privatiza e, certamente, passará vergonha ao longo da Copa do Mundo – utilizada como desculpa para estrutura um país que não precisava de evento desse porte, apenas de condições mínimas de respeitar quem já vive aqui e paga por tudo o que não funciona adequadamente.

Lembro-me que na década de 90 surgiram diversas agências que prometiam milagres em relação à qualidade do que a iniciativa privada se comprometia a oferecer de forma adequada ao público. Surgiu um serviço louvável de atendimento ao consumidor chamado PROCON e parece que estávamos caminhando para algo civilizado. Pois bem: não somos educados sobre nossos direitos de consumidor nas escolas, as agências estão sucateadas nas mãos dos partidos políticos e o país parece que ainda não encontrou uma forma de dizer BASTA. Isso porque me restringi a dois exemplos. Já imaginou se eu fosse falar dos planos de saúde, das tarifas bancárias, da qualidade da TV aberta etc. Triste país incapaz de dizer BASTA!

Late mas não morde.

por Guilherme Bara

Neste um ano de governo, Dilma veio várias vezes a público para anunciar medidas e posturas que vinham ao encontro do anseio da maioria dos formadores de opinião.

Com a clara intenção de aumentar sua popularidade em segmentos mais simpatizantes ao PSDB, Dilma fez declarações a favor da liberdade, afirmou que sua equipe seria formada por pessoas acima de qualquer suspeita, esbravejou contra as imposições da FIFA para a realização da Copa do Mundo no Brasil, como por exemplo, a necessidade de se permitir a venda de bebidas alcoólicas nos estádios de futebol, o que vai contra o “estatuto” do torcedor.

Outros dois anúncios que agradaram bastante a opinião pública foram: a ideia de distribuir o kit anti-homofobia e mais recentemente o pacote de ações que beneficiaria as mulheres no ambiente de trabalho.

O barulho foi feito, o público aplaudiu, a popularidade foi para as nuvens.

Vamos aos fatos.

Em menos de 15 meses, sete ministros nomeados por Dilma foram flagrados em supostos esquemas de corrupção pela imprensa, e depois de inúmeras declarações de apoio por parte da presidenta, a situação se tornou insustentável, o que fez os ministros caírem. Fato é que, em muitos casos os ministros substitutos pertencem aos mesmos grupos políticos dos antecessores.

Em relação às exigências da FIFA para a realização da Copa do Mundo, o governo federal é o grande articulador para que a “lei geral da copa”, contendo todas as exigências da FIFA, seja aprovada no Congresso.

Depois de fazer um enorme alarde, como se nunca o tivesse feito, Dilma recuou em relação ao kit anti-homofobia.

A contradição mais recente foi não assinar lei que punia a descriminação contra mulheres no ambiente de trabalho.

Eu mesmo cheguei a me animar, algumas vezes, com a fala da presidenta, mas percebo que pouco mudou na estratégia do governo em investir seus esforços mais em comunicação do que em reais avanços para a sociedade.