Por uma São Paulo para todos

Por Floriano Pesaro

 

Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam.” (Platão)

 

Desde jovem, tive a certeza de que seria um homem público. O gosto pela política não é sinônimo de desejo por poder. Gostar de política é atuar e aproveitar a possibilidade de transformar positivamente – e de maneira correta – a realidade.

 Acredito que a política está intimamente relacionada à capacidade de sonhar, bem como a de interpretar sonhos coletivos. Ao longo dos meus 17 anos de trajetória como servidor público, transitei pelas três esferas do poder, sempre com essa convicção em mente.

Em oito anos no Governo Federal, entre Casa Civil e Ministério da Educação, implantei o Programa de Financiamento Estudantil (Fies), possibilitando que jovens pobres cursassem o ensino superior e o maior programa de transferência de renda da história do País, o Bolsa Escola Federal – que visava manter as crianças na escola com incentivo financeiro. Posteriormente, este programa foi transformado no Bolsa-Família. De volta a São Paulo, em 2002, fui Secretário Adjunto da Casa Civil, durante a primeira gestão do Governador Geraldo Alckmin, quando ajudei a desburocratizar e modernizar o Estado por meio da Tecnologia da Informação. Em seguida, por sugestão da Professora Ruth Cardoso, fui nomeado Secretário Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social na gestão do prefeito José Serra. Na ocasião, tive a oportunidade de conhecer cada bairro, cada rua, cada córrego, cada sofrimento, mas também, cada beleza e complexidade de nossa cidade.

Neste momento, quando mais me aproximei da chamada Terra da Garoa, que decidi dar outro passo: afastar-me pela primeira vez de um cargo executivo para enfrentar uma eleição.  Nutrindo os meus sonhos através da esperança de melhoria de vida, que percebi em cada um dos paulistanos que conheci e reencontrei como Secretário de Assistência; encontrei coragem para disputar as eleições de 2008.

Após um processo eleitoral conturbado e uma exaustiva, mas gratificante, campanha, fui eleito Vereador da Cidade de São Paulo com 31.733 votos. O desafio era abandonar uma mentalidade executiva e dar conta de entender e promover mudanças importantes para nosso povo através do Poder Legislativo – que é, de fato, aquele que está mais próximo do cidadão comum.

Logo nos primeiros meses, percebi que o caminho seria árduo. No entanto, com determinação, força de vontade, concentração e mobilização, eu sabia que os resultados viriam.

Atualmente, no último ano do meu primeiro mandato de Vereador, como Líder da Bancada do PSDB na Câmara Municipal de São Paulo pelo segundo ano consecutivo, me sinto satisfeito em perceber o quanto realizamos. Junto com a minha equipe, e uma série de colaboradores ímpares, conseguimos continuar transformando para melhor a cidade em que vivemos.

“Agregar pessoas, valor, conhecimento para criar consensos e avançar, sempre guiado pelo Tripé do Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental”, foram as premissas que nortearam a minha gestão. Os resultados?

Em três anos, foram 75 Projetos de Lei (PL) apresentados. Destes, 28 tornaram-se leis. Todos eles, construídos e conquistados coletivamente.

Cada cidadão que me procurou, atuou em meu mandato direta ou indiretamente. Seja através da participação presencial na Câmara – nas mais diversas Comissões, reuniões, grupos de trabalho, me acompanhando no Programa Um dia com o Vereador – ou à distância, por meio das mídias sociais, onde tenho presença constante. Acredito que por manter essa proximidade virtual é que fui considerado um dos Vereadores que mais interagem com os cidadãos por meio das novas tecnologias. Foi o que demonstrou a pesquisa Político 2.0, da empresa especializada Mídia Log, que me aponta ainda como o vereador mais twitteiro de São Paulo. E isso não é propaganda; é compromisso com a transparência, com a Democracia.

Por tudo isso, é impossível não agradecer aqui a todas as parcerias que tornaram reais cada um desses projetos. Mas, além disso, é primordial prestar contas do que foi feito. Para isso, lançamos nosso Relatório de Gestão (http://ow.ly/bY0JU). Todo cidadão pode avaliar o que foi feito e ainda contribuir com ideias para que o nosso trabalho se solidifique ainda mais no futuro.

 Enfim, aprendi muito no Legislativo. Nutri ainda mais as minhas esperanças e vi que ainda há muito a ser feito. Apesar de a caminhada ser longa, ela não será solitária. E isso me dá ânimo e ainda mais força de vontade para enfrentar meu segundo pleito.

Tenho plena consciência de que somente juntos construiremos uma sociedade mais justa. Uma sociedade capaz de transformar ideais em ações práticas que nos aproximem de um mundo melhor, no qual cada um de nós poderá alcançar seu potencial máximo.

Pois, no final, é como eu sempre digo: se a cidade não for para todos, ela não será para ninguém.

Floriano Pesaro, sociólogo, vereador e Líder da bancada do PSDB na Câmara Municipal de São Paulo

 

Educação Inclusiva

por Reinaldo Bulgarelli

 

Dia desses fui visitar uma escola de educação infantil aqui do bairro. Estava procurando escola para meu afilhado e começamos por uma particular. Minha preferência, para manter a coerência, será uma escola pública, mas a mãe do meu afilhado queria que eu conhecesse as opções que temos nas proximidades.

 Fiquei encantado com a escola porque, sem saber, caí no paraíso da diversidade. Aquelas criancinhas todas ali brincando, se divertindo juntas e nem se dando conta de que estavam num lugar tão especial. Só mais adiante é que elas vão se dar conta disso. Acabaram de chegar ao mundo e não têm parâmetros para a comparação. Eu imagino lugares assim nos meus textos, nas minhas palestras, nos desenhos de programas que ajudo as organizações a fazer quando pensam em valorizar a diversidade.

 A diretora da escola nos atendeu e foi mostrando tudo, permitindo nossa interação com as crianças, os professores, funcionários e com os pais. Eu não queria incomodar e atrapalhar a rotina, portanto, fiquei cheio de vontade de voltar a trabalhar com creche e pré-escola. Quase me matriculei na escola!

 O que me encantou foi o apreço daquela escola pela diversidade. O espaço físico nem é tão bom assim, cheio de barreiras para a mobilidade de todos, mas tudo transpirava o gosto pela diversidade.

 Havia educadores homens. É uma beleza ver homens não apenas em atividades administrativas. É evidente que fazem ação afirmativa para garantir uma equipe de educadores tão masculina quanto feminina. O mundo da educação, sobretudo a infantil, ainda atrai mais as mulheres. A escola, portanto, gerenciava a divulgação das vagas, as inscrições dos candidatos e a seleção da equipe. Devem considerar a diversidade de gênero como um critério para seleção que garante o sucesso da escola.

 Se a escola apenas abrisse as portas sem gerenciar o processo de recrutamento e seleção, diria que não discrimina ninguém, que só apareceram mulheres. Como a escola gosta da diversidade e entende que ela constitui uma competência organizacional que faz bem para todos, não hesita em realizar ações afirmativas que garantam diversidade de gênero. Simples assim, mas algo raro de se ver ainda hoje.

 Era uma escola particular, portanto, dentro do regime de segregação racial no qual vivemos, fiquei feliz ao ver tantas crianças negras. A diretora explicou que a escola não coloca barreiras para crianças negras. A fala dela dava a entender que outrora ou que em outros lugares a barreira exista. Mais que isso, ela disse que a escola busca a diversidade racial, além de diferentes classes sociais.

 Disse, ainda, que a escola acabou sendo a preferida dos estrangeiros negros que estão no bairro, em geral médicos, executivos e profissionais liberais que moram ou trabalham nas proximidades. Não deixou de comentar que muitos acham que as crianças negras são pobres, talvez me incluindo entre essa multidão preconceituosa. Que nada! Algumas eram até ricas, disse a diretora, e que os pais gostavam da postura e do ambiente da escola. A diversidade racial era um fator de competitividade entre as escolas de educação infantil do meu bairro!

 Eu logo perguntei sobre as atividades, querendo chegar às questões de gênero, mas sem revelar minhas verdadeiras intenções. Explicações disso e daquilo foram dadas até que perguntei se os meninos e meninas brincavam das mesmas coisas. Ela disse que era difícil quebrar os tabus. Os pais reclamam. As meninas fazem balé e tudo mais. Os meninos só fazem aulas de judô. Disse, contudo, que realizam oficinas sobre gênero para a equipe. Estão no caminho, mas não é incrível que essa barreira ainda permaneça na cabeça dos adultos?

 As meninas não têm mais nenhuma ou quase nenhuma interdição e brincam de tudo, mas os meninos ainda são proibidos de brincar de boneca, casinha, enfim de tudo aquilo que precisarão para viver no século XXI. Esses meninos, mais que nunca, vão conviver com mulheres inseridas no mercado de trabalho e que esperam parceiros tão presentes nas atividades de casa como elas estão presentes nas atividades das organizações.

 Vi também que havia crianças com deficiência, apesar da arquitetura nada adequada para todos, sobretudo para crianças pequenas. Torço para que saiam logo deste lugar e encontrem um espaço compatível com a proposta e com as posturas. As crianças com deficiência estavam nas turmas e não segregadas em “salas especiais”. Também não vi queixas de que as crianças com deficiência davam mais trabalho.

 Há professores por aí que dizem que as crianças com deficiências devem aguardar do lado de fora enquanto eles se preparam. Há, ainda, os que dizem que é preciso um batalhão de professores auxiliares, talvez para manter a segregação dentro da sala de aula. Enquanto as professoras “normais” cuidam das crianças “normais”, o batalhão iria cuidar das “outras” crianças.

 Perguntei sobre a aceitação dos pais das crianças sem deficiência. A diretora disse que a inclusão era um valor da escola e que os pais descontentes procuravam outras escolas, mas que não havia assim tanto problemas, até porque a escola já é conhecida no bairro. Era um valor, portanto, os incomodados que se mudem. A máxima de que “o cliente tem sempre razão” não encontra espaço numa organização que tem uma identidade sólida e seus valores inegociáveis. Gostei de ver e fiquei lembrando que há empresas que ainda ficam do lado do cliente, mesmo diante de práticas de discriminação contra seus funcionários.

 Enfim, sai de lá encantado. Uma escola que valoriza a diversidade combate a discriminação e se organiza de maneira a promover a diversidade na maneira de ser e de realizar suas atividades. Isso é válido para toda e qualquer organização. Hoje uma aluna do curso de Sustentabilidade e Responsabilidade Social Corporativa que coordeno na FGV, a Anita, me enviou pelo Facebook uma matéria da FAPESP sobre este tema.

 Vivenciar a experiência da educação inclusiva na pré-escola pode promover a abertura em relação ao diferente, dizia a autora da matéria, Karina Toledo. Estava baseada na pesquisa qualitativa com alunos entre 7 e 16 anos de idade egressos de uma determinada creche pública. A pesquisa foi realizada pelo Instituto de Psicologia da USP. Esses alunos interagiam melhor com colegas, tinham valores que facilitavam sua inserção no mundo atual e participavam promovendo soluções nas situações de conflito que envolviam preconceitos e discriminações.

 “’A ideia era entrevistar esses alunos, agora no ensino fundamental e em escolas diferentes, para avaliar se a experiência da educação inclusiva pré-escolar teve impacto em suas atitudes e valores’, contou Marie Claire Sekkel, coordenadora da pesquisa que teve apoio da FAPESP.”

 Hoje de manhã eu estava numa grande empresa exatamente conversando sobre como a valorização e promoção da diversidade na organização capacitava a todos para lidar com um mundo também diverso, ampliando os horizontes, formando gente criativa, inovadora, aberta a mudanças e à complexidade dos tempos atuais. Já não estão mais na educação infantil, mas a empresa também é lugar de desenvolvimento das pessoas para lidar com diferentes perspectivas.

 E tem aquelas pessoas que dizem que é preciso acabar o mundo e começar de novo pela creche. Não estou dizendo isso aqui neste artigo e sou muito contrário a esta ideia, como já disse tantas vezes. A infância e a educação infantil – creche e pré-escola, são fundamentais para nossa formação, mas como qualquer outra fase da vida. Enquanto estamos vivos, estamos aprendendo. Até o último suspiro somos seres que dialogam com o mundo, inacabados, prontos para se transformar, aprender e realizar mudanças.

 Há outros que dizem que de nada adianta porque a criancinha sai de uma escola assim bacana e cai num mundo perverso, logo esquecendo o que viveram. Mas a educação inclusiva não está apenas na dimensão do tempo. Está na dimensão do amor. Não há nada que o amor não possa curar ou que não possa perpetuar. Não é o tempo que cura nossas dores ou que nos salva dos espaços perversos. O tempo pode gerar esquecimento. O amor gera lembranças. Quando se vive de verdade, tudo que queremos é amor.

 Educação inclusiva é gesto de amor. Não é vivência que permanece porque foi vivenciada na primeira ou na “última infância”, mas porque foi vivência significativa de acolhimento da vida como ela é. Sempre que se acolhe a vida em sua diversidade criadora, está se acolhendo o amor e nada fala mais alto do que uma experiência de amor.

Pedal como política pública

Por: Humberto Dantas – doutor em ciência política

Nasci num país que assistiu na década de 80 uma das mais brilhantes campanhas publicitárias do mundo. A empresa se chamava Caloi e produzia bicicletas, vendida à época como um objeto de consumo que representava o sonho de todas as crianças. Tive três bicicletas em minha vida. A última foi uma Caloi 10, uma máquina de correr. Fui atropelado aos 15 anos em Pinheiros, voltando da escola. Um milagre não levou minha vida embora, mas o nariz torto é resultado do acidente. Os agraciados com as bicicletas, ou não, cresceram e passaram a viver o milagre do acesso ao carro e à moto, ou seja, do motor, do combustível, do seguro, da poluição. Onde está a bicicleta? Onde se perdeu o nosso sonho?

 Faz alguns anos a bicicleta ressurgiu fortemente como opção para o caos urbano. Mas não em São Paulo, onde o governo utiliza seu jornal oficial para sugerir que tal modal é perigoso – reportagem desacreditada pelo próprio poder público quando percebeu a besteira que falou. Em países desenvolvidos a bicicleta é levada a sério. Faz algumas semanas resolvi fazer um biketour com minha mulher em Barcelona. Confesso que no início lembrei-me do acidente de 1990. Mas logo percebi que ali a história é outra. Bicicleta tem faixa própria, é respeitada, até semáforo exclusivo possui. Coisa de cidade que pensa, que vai além, apesar de ter uma rede de metrô formidável.

Mais alguns dias e cheguei a Paris. Lá o trânsito é caótico, e os franceses são estúpidos demais atrás do volante. Ainda assim, lá estavam as bicicletas, a despeito de 14 (QUATORZE) linhas de Metrô e dezenas de estações. Franceses vão ao trabalho de terno, gravata, saia, vestido, pedal e capacete. Faixas existem e a sensação de segurança, apesar de menor que a vivida em Barcelona, existe. Mas a surpresa maior estava reservada para uma reportagem que li numa revista em vôo entre essas duas cidades. O país atende pelo nome de Dinamarca, e a cidade é Copenhague. Lá, cerca de 90% dos cidadãos possuem bicicletas, e mais da metade dos deslocamentos dos cidadãos que moram no centro são feitos de bicicleta. Na região metropolitana como um todo, um terço. Lembremos que na Dinamarca neva, e ainda assim é possível ver as magrelas lá, em meio à paisagem branca e gelada. Em uma equação feita por economistas locais concluiu-se que cada quilômetro rodado de carro representa uma perda de R$ 0,20, enquanto no caso da bicicleta ganha-se R$ 0,40. Poluição, saúde, combustível e uma série de tormentos urbanos entram nessa conta. E nós por aqui? Continuamos pagando a conta. Até quando?

A imprensa que o PT odeia

 Por Mara Gabrilli

 

 Temeroso com o início do julgamento do mensalão, marcado para agosto, José Dirceu, um dos 38 réus do processo, não relutou em atacar a imprensa recentemente ao pedir para que estudantes da União da Juventude Socialista (UJS) saíssem às ruas para travar a batalha contra o monopólio da mídia.

Por que Dirceu, no auge de sua indignação com o que considera uma manipulação midiática, não acena para que esses mesmos jovens questionem o encontro de Lula com o ministro Gilmar Mendes e a tentativa desmoralizada de adiar uma ação esperada por toda a sociedade?

Pudera sua ansiedade pelo julgamento; Dirceu é um capítulo a parte nessa história. Ele fez parte do laboratório do que tempos depois seria chamado de mensalão. Afinal, consta nos autos que muito antes do assassinato do prefeito Celso Daniel, em 2002, Dirceu, na época presidente do PT, já se esbaldava com dinheiro desviado, oriundo da extorsão feita a empresários de Santo André. Meu pai foi um dos espoliados. Todo mês tinha sua empresa invadida por Sérgio Sombra, segurança de Celso Daniel. Ele jogava o revólver na mesa e exigia a “caixinha”.

Para o ex-prefeito de Santo André, os fins justificavam os meios – Celso considerava tal prática normal, contanto que o dinheiro da extorsão fosse para financiamento das campanhas do PT.

Meu pai inutilmente ligava para o gabinete de Gilberto Carvalho, na ocasião secretário de Governo de Celso Daniel, para alertar sobre a bandalheira na administração do município. Era debochado enquanto as ameaças aumentavam a cada dia. Ficou muito doente, foi obrigado a abandonar o que mais amava fazer: trabalhar. Emudeceu. Foi tirado de cena. No ano passado nos deixou. A mim restou uma sensação de impunidade latente no peito.

Pois bem, finalmente, o processo do mensalão está maduro e pronto a ser julgado. O povo espera por isso. Então saiamos às ruas, sim, mas para cobrar justiça. Fica aí o meu convite a José Dirceu e toda tropa mensaleira indignada com a mídia que os taxa de “ladrões”.

Pergunto-me qual seria o melhor emprego de adjetivo para designá-los: corretos? honestos? injustiçados?!

São indissolúveis a liberdade de imprensa e a democracia. Então, caberá aos próprios veículos e à sociedade julgar esse poder social dos noticiários. Não cabe ao Estado fazer essa agendasetting.

Delúbio Soares, por exemplo, afirmou há pouco tempo, durante reunião com aliados, em Morrinhos, Goiás, que a imprensa já havia condenado a ele e a seu partido no julgamento do mensalão. O petista foi além e disse que a denúncia ao esquema de corrupção não passava de uma fantasia.

O discurso do ex-tesoureiro, esse sim fantasioso, é só mais uma das manobras (mal sucedidas) criadas pelo PT para desviar os olhos do povo e calar a voz da imprensa para os escândalos de corrupção do governo Lula. Aliás, esse mais um dos protagonistas da origem de um dos maiores esquemas de corrupção da história de nossa política.

Não é por acaso que o ex-presidente tentou usar a CPI do Cachoeira como cortina para velar o julgamento do mensalão. Conheço bem essa manobra para desvirtuar a corrupção latente nas entranhas do partido de Lula. Senti na pele o desdém pelo qual o ex-presidente lida com a corrupção.

Fui a primeira pessoa a levar toda essa história ao conhecimento do Ministério Público de São Paulo e denunciar o esquema de corrupção depois da morte de Celso Daniel. Procurei o presidente Lula para contar que as retaliações continuavam no ABC e que algo precisava ser feito. Ele me recebeu em seu apartamento, ouviu toda a história, fez ares de surpresa – como se tudo aquilo lhe fosse novo. “Ele não sabia de nada….” Esse discurso perdura até hoje.

Durante encontro com Lula, vários jornalistas cercavam o local. Ao sair de seu apartamento, o presidente ordenou que um de seus assessores me determinasse a não dizer o teor que tratávamos. Sugeriu até que dissesse que o assunto era reabilitação.Tentou manipular-me para que não contasse a verdade à imprensa. Lula não calou-me. Na ocasião, já tetraplégica devido a um acidente de carro, presidia uma ONG para buscar qualidade de vida para pessoas com deficiência e não passava pela minha cabeça entrar para a política.

Hoje, depois de dez anos da morte de Celso Daniel, consigo enxergar um lampejo de esperança nesse lamaçal. Sei que o julgamento do processo não poderia estar em mãos mais brilhantes que a do presidente do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto. Presenciei a leitura de seu relatório no julgamento em que discorreu sobre a origem da vida, o que culminou na liberação do uso de células-tronco embrionárias para pesquisas no Brasil. A decisão depositou luz a milhares de pessoas que aguardavam há anos tal deliberação, engendrando novas perspectivas científicas para o País. Jurista, transformou dados em poesia. Sua ética e transparência me levam a crer em um recomeço pautado na liberdade de imprensa, em uma política menos melindrada e mais honesta. Torço para que devolva o que meu pai não pôde ver, mas que muitos brasileiros ainda esperam: justiça