Direitos pelos ares

Por Mara Gabrilli

“Tripulação foi embora e me esqueceram. Vou roubar este Airbus. Será que é fácil pilotar?”
A frase bem humorada é do escritor Marcelo Rubens Paiva, que recentemente ficou preso durante 45 minutos em um avião cujo vôo partira do Rio de Janeiro a São Paulo. Sozinho dentro da aeronave, o jornalista apelou ao Twitter para pedir ajuda. Segundo ele, essa não foi a primeira vez que passou por este tipo de situação em viagens aéreas.

A repercussão do episódio com Paiva aqueceu novamente a discussão sobre o serviço prestado às pessoas com deficiência e mobilidade reduzida – em especial no momento de desembarque, quando fica mais evidente a falta de equipamentos apropriados e pessoal capacitado para fazê-lo.
Com o arquiteto aposentado Fernando Vasconcelos, as consequências foram muito mais drásticas. Em dezembro de 2010, ele foi internado após sofrer acidente no famigerado ambulift. O avião em que Vasconcelos viajara também parou em posição remota. Na pista, o equipamento freou bruscamente e a funcionária da companhia aérea caiu sobre a cadeira de rodas do aposentado que, sem cinto, tombou e bateu a cabeça, sofrendo traumatismo craniano. Desde então, o aposentado está em coma. Sem falar ou responder a qualquer estímulo.

Episódios como o de Paiva e Vasconcelos retratam a importância do uso do finger para o desembarque com segurança dos passageiros. O equipamento, que se acopla à entrada da aeronave interligando o acesso ao terminal, é o meio mais prático e seguro para desembarcar qualquer viajante. É também o meio mais inclusivo, pois é acessível à diversidade humana: idosos, gestantes, crianças, cegos, cadeirantes… Todos têm a oportunidade de desembarcar, com dignidade, pelo mesmo equipamento.

Hoje, as pessoas com deficiência estão cada vez mais participativas na sociedade. Além disso, a expectativa de vida do brasileiro aumentou, trazendo à tona idosos cada vez mais ativos.  Por isso, é de suma importância que todo o setor de aviação do país atente-se ao desafio de criar um serviço sustentável, que atenda não só a diversidade humana, mas as futuras gerações.
Finger, ambulifts, telefones públicos, ônibus e sanitários adaptados. Piso tátil, check-in acessível, intérprete de Libras e manual de vôo em braille são, entre outras tantas, medidas que deflagram não só um serviço de qualidade, mas o principal: respeito pelas pessoas. Alguns aeroportos e companhias já estão próximos de oferecer essa infraestrutura, mas muitos ainda estão aquém do esperado.

A ANAC instaurou audiência pública sobre a proposta de revisão da Resolução N° 09, de 5 de junho de 2007, que dispõe exatamente sobre o acesso ao transporte aéreo de passageiros com deficiência. Dentre as propostas abertas para discussão, algumas polêmicas: fim da reserva das três primeiras fileiras dos aviões e a reserva da passagem com antecedência obrigatória de 48 horas.

Viajo semanalmente a Brasília e já senti na pele alguns problemas do serviço. Como usuária, considero as duas medidas da resolução inexequíveis a mim, bem como a qualquer outro passageiro com deficiência e mobilidade reduzida.

Já imaginou a dificuldade para um idoso se locomover até o banheiro do avião, se estiver sentado em uma poltrona distante?

Em caso de acidentes, seria ainda mais difícil tirá-lo da aeronave. E o que fazer em caso de uma viagem de emergência? Não ir porque não previu a viagem 48 horas antes?
As prestadoras de serviço precisam atender a diversidade humana a qualquer momento. E fazê-lo não só com eficiência, mas sob uma ótica mais inclusiva, respeitosa. O ganho é de todos. Afinal, sediaremos grandes eventos, inclusive, uma Paralímpiadas, quando virão delegações de atletas com deficiência de todo o mundo.

A prévia da nova resolução N° 09, de 5 de junho de 2007 está aberta para sugestões no site da ANAC até o dia 5 de setembro, com direito a duas audiências públicas, ainda sem data marcada. A opinião de quem sente na pele esses problemas é muito importante para que façam valer, de fato, nossos direitos de consumidores e cidadãos.

Chegou a hora de voarmos mais alto e buscarmos nossos direitos na hora de viajar.

 

Cores Eleitorais

Por Humberto Dantas – doutor em ciência política

Partidos políticos são organizações que possuem cores. E tais cores costumam ser utilizadas em seus respectivos materiais de campanha, auxiliando a percepção do eleitor. Alguns governos, inclusive, levam tais cores para seus próprios gabinetes, e pintam a cidade com base em sua orientação partidária. A atitude costuma ser alvo de ações da justiça e devemos admitir que esse cenário já foi pior.

Da mesma forma que é comum ver as legendas utilizando suas cores, é possível verificar algumas ações que contrariam totalmente esse cenário. Por exemplo: partidos queimados em dadas realidades mudam, literalmente, de cor. Partidos que recebem apoio de outras agremiações maiores também o fazem. Assim, assistimos uma verdadeira aquarela que desafia o pouco grau de percepção do eleitorado em relação a essas organizações. Alguns exemplos são capazes de ilustrar meu argumento. O mais célebre deles destacou-se no discurso de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, quando conquistou a presidência pela primeira vez. Considerado um radical de esquerda em disputas anteriores, aliou-se ao Partido Liberal, tomou um empresário como candidato a vice, publicou uma carta de respeito às instituições e afirmou, para todos ouvirem, que seu lema era paz e amor, ou melhor, um Lula cor de rosa. Foi assim que ganhou a eleição, atenuando, amenizando, dissolvendo em branco as cores de seu partido.

Nas Serras Gaúchas existem dois municípios muito famosos no campo do turismo, divididos apenas por um curto trecho de rodovia que mais parece uma grande avenida repleta de estabelecimentos comerciais. Falo especificamente de Gramado e de Canela. Lá, os partidos embarcaram na inversão das cores. Em um deles o PMDB ficou vermelho, ou seja, se afastou do laranja que sempre o caracterizou. E em outro o PT ficou verde, absolutamente verde. Por que agiram assim? A explicação deve existir.

Por fim, vale destacar, dentre tantos outros casos, o exemplo de Curitiba. Beto Richa foi eleito prefeito em 2008. Seu partido, o PSDB, utiliza-se da combinação entre azul e amarelo. Seu número é o 45. Em 2010, Richa deixou a prefeitura da capital e tentou um voo alto e ousado. Elegeu-se governador do Paraná, deixando a prefeitura para seu vice, Luciano Ducci do PSB. O Partido Socialista Brasileiro, como o próprio nome sugere, tende ao vermelho e amarelo. Mas Ducci adotou o azul e o amarelo, cores do PSDB, com o número 40, do PSB, em destaque. Seria uma forma de dizer onde Richa está? De dizer o que o PSB representa naquela cidade? De confundir ou auxiliar o eleitorado? Movimento semelhante, em virtude da posição desses mesmos partidos poderia estar ocorrendo em Belo Horizonte, mas por lá a campanha de Marcio Lacerda (PSB) à reeleição, apoiada fortemente pelo PSDB do governador Anastasia, e do senador Aécio se manteve amarela e vermelha, a combinação de cores mais socialistas.

Cidades inclusivas, cidades inteligentes

Por Reinaldo Bulgarelli

Coisa mais difícil é me tirar de casa para passear, mas jantar com os amigos Marcelo e Mônica era um ótimo motivo. Acabamos andando pela Paulista já tarde da noite e foi logo depois da Rio + 20. Levei um susto com tanta gente na rua naquela hora em que já estou dormindo faz tempo.

Havia skatistas e índios brasileiros, músicos peruanos e um Michael Jackson cercado de fãs, famílias caminhando lentamente para admirar os prédios, tribos de todo tipo se entrelaçando no vai e vem da avenida mais paulista da cidade. Para que os skatistas pudessem ter seu lugar, os demais desviavam ou iam por cantos da calçada. Diante dos shows a gente desviava, se espremia entre as multidões ou parava para assistir. Se eu tivesse tirado uma foto, daria o nome de tolerância.

Lembrei logo do livro do Carlos Leite: Cidades Sustentáveis, Cidades Inteligentes, lançado este ano pela Bookman. O subtítulo é Desenvolvimento Sustentável num Planeta Urbano. Ele me convidou para participar do diálogo com Beth França e Raul Juste Lores para o lançamento em 11 de junho passado. Carlos Leite diz que as grandes cidades são mais sustentáveis, assim como defende a ONU e o economista Edward Glaeser, professor de Haward. Cidade é solução e quanto mais vertical, melhor.

Já pensou acabar com as cidades, grandes ou pequenas, espalhando os 6 bilhões de pessoas pelo planeta para que todos tenham uma vida mais verde? Pois é, não vai dar certo. O programa Cidades e Soluções, com André Trigueiro, também falou do assunto. Até 2050, estima-se que o planeta terá 9 bilhões de pessoas, com 6,3 bilhões vivendo nas cidades. É o dobro do número atual, que já não é pequeno.  Hoje, dos 6 bilhões, 3,5 bilhões de pessoas vivem nas cidades que, aliás, ocupam 5% do planeta.

Muitos, como estes autores citados, defendem que quanto menos espaço ocuparmos, menos impactos causamos à natureza. Há outros que defendem mesmo é o confinamento da humanidade em um território ainda menor que os 5% que ocupamos, já que tanto mal causamos às outras espécies…

Exageros à parte, é evidente que precisamos repensar o modo como vivemos. Cerca de 70% das emissões de CO2 acontecem nas cidades. Tudo indica que as cidades são os espaços que mais nos atraem e que a tendência é essa mesmo. Seja por necessidade ou por escolha, nascemos, ficamos ou migramos para as cidades e algumas delas, como São Paulo, se tornam gigantescas. Somos, por aqui, 11 milhões de habitantes. Chegamos a quase 20 milhões considerando as cidades próximas.

Além das questões ambientais, precisamos mais que nunca aprender a conviver com a diversidade. Mais que isso, claro, precisamos aprender a valorizar a diversidade. A vida é um inferno para quem odeia a diversidade e estes acabam fazendo da vida dos outros um inferno também. A intolerância é um veneno tão perigoso para a saúde como a poluição.

Ah, para os que não gostam da palavra tolerância, lembro aqui a Declaração de Princípios sobre a Tolerância, aprovada pela Unesco em 1995: “1.1 A tolerância é o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade das culturas de nosso mundo, de nossos modos de expressão e de nossas maneiras de exprimir nossa qualidade de seres humanos. É fomentada pelo conhecimento, a abertura de espírito, a comunicação e a liberdade de pensamento, de consciência e de crença. A tolerância é a harmonia na diferença. Não só é um dever de ordem ética; é igualmente uma necessidade política e jurídica. A tolerância é uma virtude que torna a paz possível e contribui para substituir uma cultura de guerra por uma cultura de paz. 1.2 A tolerância não é concessão, condescendência, indulgência. A tolerância é, antes de tudo, uma atitude ativa fundada no reconhecimento dos direitos universais da pessoa humana e das liberdades fundamentais do outro. Em nenhum caso a tolerância poderia ser invocada para justificar lesões a esses valores fundamentais. A tolerância deve ser praticada pelos indivíduos, pelos grupos e pelo Estado.” Declaração de Princípios Sobre a Tolerância 

Com os 3,5 bilhões que hoje vivem nas cidades e com a gente aqui convivendo com outras quase 20 milhões de pessoas, a tolerância é ou não é um conceito importante? Se você se chatear com o povo dando show na av. Paulista, andando de skate, circulando pela cidade mesmo de madrugada, o stress aumenta em torno de algo que só tem solução com a mudança para um lugar tranquilo, mas poluindo ainda mais o planeta. Ou você acha que está sozinho neste desejo?

Uma pesquisa mostrou que 51% dos paulistanos gostariam de morar em outro lugar. Que triste! Minha cidade teve notas baixas em transporte, assistência social, acessibilidade, desigualdade social, transparência e participação política. Uma queixa generalizada dos equipamentos, bens e serviços que fazem pensar se as pessoas querem sair desta cidade ou se querem construir outra cidade melhor em algum outro lugar. Porque não participar mais e ajudar a construir em São Paulo esse paraíso?

Grande parte dos meus amigos que trabalham com a chamada sustentabilidade sonha com o campo e pragueja contra a cidade. Eu moro na Rua Augusta, perto da av. Paulista, em área muito agitada, portanto, sou visto como um bicho estranho por muitos deles, eu sei. Mas o tempo e a energia que usamos para praguejar contra a cidade, não poderiam ser utilizados para melhorar a nossa qualidade de vida? Como vamos melhorar algo se nossa cabeça vive sonhando com florestas? Por isso eu gosto tanto do programa do André Trigueiro – Cidades e Soluções. Faz pensar nos desafios e possibilidades que temos por aqui.

Nada contra quem sonha em viver no campo ou cidades bem menores. A possibilidade de escolher é maravilhosa, mas defender isso para os 6 bilhões exige pensar nas consequências. Aliás, passei uma semana numa cidade pequena e fiquei mais irritado com os carros com grandes alto-falantes que faziam propaganda de algumas lojas, do que fico aqui em São Paulo com todo nosso agito. Vendo aquele barulhão todo, onde estão as cidades pacatas do interior?

Cidades inclusivas são cidades inteligentes, parafraseando o Carlos Leite. Também é verdade que é preciso inteligência para termos inclusão, com bens, serviços e equipamentos distribuídos de forma justa e muito espaço para a expressão de todos. Sem expressão, não há solução, mas exige muito compromisso com a postura ativa de respeito que a Declaração da Unesco estimula.

Coisas que não podem acontecer na cidade inclusiva, inteligente, que atrai e mantém gente criativa e participativa:

“Eu não gosto, portanto, não deve existir.”

“Eu não sei lidar, portanto, não deve estar aqui.”

“Eu não concordo, portanto, não deve se expressar.”

“Eu não entendo, portanto, não deve ser boa coisa.”

“Eu não acredito, portanto, não deve ter vez.”

“Eu não tolero, portanto, não deve ser visto.”

 A exclusão tem total relação com o autoritarismo, assim como a inclusão é amiga da democracia. Difícil é dizer se a inclusão é mais importante para a democracia ou se a democracia é mais importante para a inclusão. Uma é parte da outra. Gente que se acha o centro do mundo, o modelo de ser humano, o critério de normalidade, de gente boa, de moralidade, de coisas saudáveis e boas para todos, não consegue conviver bem nas cidades, muito menos nas democracias. A diversidade é a cara das cidades, mas as cidades que odeiam diversidade não têm futuro, evidentemente. Como anda seu gosto pela diversidade?

 

Economia Criativa

Por Andrea Matarazzo

 A economia brasileira surgiu das atividades extrativistas e agrícolas, consolidou-se no século passado com a indústria e, mais recentemente, uma parcela da produção nacional vem se concentrando nos setores de comércio e serviços. Nos últimos anos, outra área vem surgindo com força total, principalmente nas capitais: a economia criativa.

Novidade nesse panorama, a economia criativa pode ser definida como o ciclo que engloba criação, produção e distribuição de bens que têm a criatividade como sua matéria-prima. Neste conceito, o talento e a habilidade de grupos ou indivíduos são os insumos primários de todo um setor que se baseia no conhecimento para criar riqueza, emprego e renda. Isso inclui desde as manifestações culturais tradicionais ao mercado da arte, passando pela publicidade, meios de comunicação de massa, mercado editorial, arquitetura e design. 

A cidade de São Paulo, assim como várias grandes cidades brasileiras, é um bom exemplo do movimento criado pela economia criativa. Hoje, cerca de 10% do produto interno bruto da capital paulista é gerado neste campo. Trata-se de um setor que surge e se desenvolve oferecendo, fundamentalmente, empregos formais e bem remunerados.

No contexto mundial, algumas cidades, como Londres, Berlim e Barcelona, passaram a exercer políticas públicas de aberto favorecimento à instalação das atividades ligadas à economia criativa, e, com isso, recuperaram prestígio, geraram empregos, atraíram turistas, ganharam capacidade de investimento público e qualidade urbana.

Os governos – federal, estaduais e municipais – podem e devem seguir o exemplo europeu para que as cidades brasileiras alcancem posição favorável para o desenvolvimento da economia criativa, com compartilhamento de responsabilidades e investimentos.

Na divisão de competências tradicionalmente praticada entre as esferas de governo, muitas vezes entende-se que o estabelecimento de políticas econômicas não é atribuição das prefeituras. De fato, a União e os Estados estão melhor equipados para isso. Mas as prefeituras contam com uma série de instrumentos, tanto fiscais, como urbanísticos e administrativos, que devem ser utilizados para fortalecer este segmento da economia.

As possibilidades de ação são imensas. Cito algumas ideias: estabelecimento de polos tecnológicos com foco em empresas de design, animação, cinema, publicidade; oferecimento de incentivos fiscais específicos para atividades com grande capacidade multiplicadora; revitalização de centros urbanos, oferta de facilidades para as atividades que usem e valorizem a paisagem urbana; oferta de incentivos fiscais para que atividades da economia criativa se instalem e usem áreas urbanas decadentes; o apoio à micro empresa e ao empreendedorismo; a redução da burocracia e a racionalização de processos administrativos. Na área de acessibilidade e inclusão das pessoas com deficiência, são também diversos os nichos em que a economia criativa vem sendo usada de maneira inteligente, como a criação de software para facilitar leitura e compreensão de textos eletrônicos por cegos, ou programas para que pessoas que não têm o movimento das mãos possam usar computadores e dispositivos eletrônicos apenas com o movimento dos olhos, enfim, dispositivos que proporcionem a autonomia destas pessoas.

Todos estes são exemplos de ferramentas poderosas e que devem ser exercidas em favor das pessoas. A economia criativa é um nicho crescente de empregos, renda e desenvolvimento no Brasil contemporâneo.