Milhões de “Felicianos”

Por Guilherme Bara

 

Depois que o Governo Dilma deu ao Deputado Pastor Marco Feliciano a possibilidade de presidir a Comissão de direitos humanos da Câmara dos deputados, temos assistido um enorme clamor de vários segmentos da sociedade, pedindo o afastamento do pastor.

Feliciano tem em seu currículo declarações onde relaciona as pessoas negras ao demônio e trata os homossexuais como doentes.

Defensores de Feliciano argumentam que o pastor tem legitimidade para o cargo, já que recebeu o voto de mais de 180.000 eleitores.

Poderíamos dizer assim que o pastor representa 180.000 cidadãos que pensam da mesma forma.

Desconfio, porém, que representa parcela muito maior da sociedade.

Apenas para abordar o que foi dito sobre os negros, nós que estamos postando centenas de milhares de mensagens nas redes sociais onde nos mostramos indignados pela postura do representante evangélico, se deixarmos um pouco de lado a retórica e prestarmos atenção em nosso comportamento e dos grupos sociais que pertencemos, poderemos nos surpreender em ver no Deputado “anticristo” um representante de nossas próprias atitudes.

Quantas vezes se comentou com certa perplexidade quando alguém branco surge com um namorado ou namorada negra?

Quantas vezes percebemos olhares surpresos quando uma pessoa negra está dirigindo um carro de luxo?

Quantas vezes um belo rapaz negro é contratado para dançar a valsa de 15 anos com a debutante branca?

Quantas pessoas negras você vê circulando no shopping que frequenta?

Para fechar, quantos são os negros que você tem como colegas em seu trabalho?

Ao  respondermos estas perguntas percebemos que excluir o negro não é privilégio, muito menos exclusividade do pastor Feliciano.

Percebemos que o pastor representa as práticas de uma enorme parcela de nossa população.

Quem sabe a presença de “Felicianos e Bolsonaros” sirva, pelo menos, para que estes temas saiam debaixo do tapete e consequentemente, faça que revisemos nossas crenças e sobre tudo nosso comportamento.

Assim, nas próximas eleições, poderemos eleger deputados que representem, quem sabe, um novo modelo de sociedade, de fato mais inclusiva.

Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo

Por Mara Gabrilli

No ano passado, tive a honra de conhecer uma mãe de mais de 400 filhos. A médica Fátima Dourado, pediatra especialista em transtornos do espectro do autismo é autora do livro “Autismo e Cérebro Social, Compreensão e Ação”. Fátima é biologicamente mãe de seis filhos. Mas, na Casa da Esperança, em Fortaleza, ela encontra seus 400 filhos de coração, todos autistas atendidos por ela e sua equipe multidisciplinar. Fundada pela médica e um grupo de oito mães, a instituição é responsável por realizar mais de mil procedimentos ambulatoriais diariamente.

A história de Fátima foi construída junto a de outras mães de autistas, sendo ela mesma uma dessas guerreiras. Quando seu segundo filho, Giordano Bruno nasceu, uma semana após sua formatura do curso de medicina, Fátima, hoje com 57 anos, passou a estranhar o atraso na fala de sua criança. O menino, que era lindo e saudável, demonstrava um desenvolvimento atrasado comparado ao de outras crianças de sua idade. Mesmo médica, passou por todas as agrúrias que outras mães passam ainda hoje para chegar ao diagnóstico do autismo. “Ouvi de muitos profissionais que era uma mãe fria e que o meu filho sofria de negligência parental. Cheguei a duvidar de meu amor maternal”, conta.

Fátima sofreu, questionou-se, até que, depois de muito tempo, soube que dois de seus seis filhos eram autistas. Em 1993, com objetivo de tirar os filhos do limbo social, fundou a Casa da Esperança.

O autismo foi identificado em 1943. No entanto, ainda hoje, não existe nenhum tipo de política pública no Brasil que atenda os autistas. Falta preparo da área médica para diagnosticar, bem como profissionais nas escolas aptos para lidar com as necessidades desses alunos.

A população com autismo acaba por se apoiar em ações do Terceiro Setor e na união de mães como Fátima. O Poder Público só agora começou a caminhar. No final do ano passado foi sancionada a Lei federal 12.764/12, que instituiu a Política Nacional dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

Resultado de um esforço abissal de mães e pais cansados de viver à margem de serviços, a Lei, conhecida como Berenice Piana, em homenagem à mãe de um autista ativista da luta, já traz em seu primeiro artigo o principal avanço, considerando a pessoa com transtorno do espectro autista, para todos os efeitos legais, pessoa com deficiência. Este dispositivo põe fim a qualquer discussão ou dúvida, permitindo que essa população tenha o acesso aos direitos garantidos pela Legislação.

Tive a honra de escrever o texto final do projeto de lei substitutivo, processo que me permitiu conhecer e ouvir muitas mães e pais de autistas de todo o Brasil. Essas pessoas me inspiraram não só a desenvolver a relatoria do PL, como a entender e enxergar o universo dessas pessoas, que embora tortuoso, é repleto de amor e singularidades.

Neste mês em que celebramos o Dia Mundial de Conscientização Sobre o Autismo, (2/4), espero que, assim como muitas mães e pais, possamos encontrar, enfim, uma maneira de proporcionar às pessoas com autismo o cuidado e respeito que tanto lhes faltaram por décadas. Tenho certeza de que não faltarão aliados nessa luta. Todos dispostos a fazer de suas histórias exemplos para futuras gerações. 

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