A Europa e as pessoas com deficiência

Por Guilherme Bara

Esta semana escrevo da Alemanha, onde estou a trabalho. Aproveito o gancho para falar um pouco do processo de inclusão na Europa. As duas grandes guerras acontecidas em território europeu fizeram que muitos combatentes voltassem para casa com algum tipo de deficiência física ou sensorial. Assim, a imagem da pessoa com deficiência na Europa é, muitas vezes, associada ao herói de guerra, diferente do Brasil onde associamos as pessoas cegas ou em cadeira de rodas a pedintes nos faróis.

Isto explica em parte a diferença entre o respeito que o “velho mundo” tem em relação ao tema e o Brasil.

As rampas, sinalizações, e demais adaptações são freqüentes em diversos locais nas cidades européias. A diferença é flagrante quando comparamos com as cidades brasileiras, sejam as capitais, ou mesmo nas pequenas cidades do interior, onde o conceito de acessibilidade parece distante. Temos então na Europa um ambiente acessível e inclusivo para as pessoas com deficiência? Acessível sim, inclusivo, nem tanto.

Se o respeito é bem maior que no Brasil, a inclusão, todavia, é um desafio por aqui. O respeito existe, porém as sete décadas que se passaram da última guerra mundial faz com que as novas gerações comecem a se distanciar dos “heróis de guerra”e mesmo com o respeito ao tema e aos antepassados, a dificuldade em um convívio natural entre as pessoas com e sem deficiência está longe do ideal.

Na maioria dos países o conceito é de integração, isto é, criar condições de estudo e de trabalho para os cidadãos com deficiência, porém não, necessariamente, no mesmo ambiente onde os trabalhadores e estudantes sem deficiência freqüentam. A sociedade, desta forma, integra, porém não inclui. Conceitos tão parecidos, mas que fazem bastante diferença nas condições de real acesso das pessoas com deficiência.

Se aqui as pessoas não enfrentam tantas barreiras físicas como no Brasil, enfrentam a as barreiras invisíveis para participar dos grupos sociais “regulares”, o que tem como conseqüência a formação de uma sociedade paralela e em certo grau, segregada. Se a Europa está bem adiantada em relação à acessibilidade arquitetônica, tem que avançar e rever alguns conceitos para ser uma região, de fato, inclusiva.

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Comentários

  • bem interessante o assunto da integração, mas não inclusão. pensamos que, na europa e usa, bem como em outros países tecnologicamente mais adiantados que aqui no brasil, estamos em grande baixa, é certo que sim, porém, encontramos também lá, existem problemas. m

    • Guilherme Bara disse:

      Quanto frequento reuniões na EUropa, quase sempre, as pessoas de lá ficam surpresas e até sem ação quando veem que eu não enxergo. O convívio é muito baixo entre pessoas com e sem deficiência por lá. Mesmo nas ruas as pessoas estranhavam bastante minha presença. Abraço e continue visitando o blog.

  • Thiago Caixeta disse:

    Conheço bem a Alemanha e seu povo e percebo que os jovens têm um comportamento bem diferente daqueles que viveram logo após a guerra e tiveram que construir tudo do zero. Essa nova geração está acostumada com tudo pronto e sem muito esforço, estão perdendo rapidamente vários dos valores adquiridos na segunda metade do sec XX. Espero que a acessibilidade esteja sempre garantida por lei lá, já a inclusão imagino que deverá continuar sendo um grande desafio, principalmente do jeito que as coisas estão caminhando por lá!

  • Lorena disse:

    Guilherme,

    Vivi por alguns anos na Europa, complementando meu estudos em medicina.

    Isso já faz algum tempo. Eu já observava isso naquela época. Trabalhei justamente no atendimento de pessoas com deficiências várias.

    Notei que essas pessoas e suas famílias tinham muito suporte governamental: assistência médica especializada, transporte especial para consultas e tratamentos, medicamentos, proteses, órteses. As famílias tinham incentivos, facilidades, etc..

    Entretanto, essas facilidades encerravam dentro da casa, das escolas especiais ou das instituições médicas esses deficientes que não circulavam dentro dos ambientes “comuns”. Definitivamente nada inclusivo.

    Isso é comparável as exigências que surgem na Europa para que as pessoas eliminem seus símbolos religiosos do dia a dia – o véu das muçulmanas é um exemplo (com o intuito presumido e democratizar e eliminar as diferenças).

    Ora, as diferenças existem!!! Isso jamais mudará. Não é correto nem necessário eliminá-las… Temos sim é que aprender a respeitá-las e a conviver com elas.

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