A privatização da democracia brasileira

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Por Floriano Pesaro

 Artigo publicado no jornal “Folha de São Paulo”em 28/04/2012

 A cidade de São Paulo deve ceder um terreno ao Instituto Lula?

NÃO

Interessa à população de São Paulo ceder um terreno público localizado no mais importante polo cultural da cidade ao Instituto Lula, cuja missão é cuidar do acervo histórico da gestão do ex-presidente e divulgar as suas realizações? Parece-me claro que não. O único beneficiado com essa transação será o PT e seu projeto de poder.

O projeto de lei 29/2012, do Poder Executivo, em tramitação na Câmara dos Vereadores, autoriza a concessão, sem concorrência, por 99 anos, de uma área pública na região central ao Instituto Lula.

São4.300 m2, estimamos pelo mercadoem até R$ 20 milhões, em uma região que começa a passar por intenso processo de requalificação. O projeto de lei nem sequer exige contrapartidas, à exceção da exigência de se abrir o espaço à visitação de escolas públicas.

Segundo o texto, no local será erguido um Memorial da Democracia, um museu para “dar visibilidade pública à cultura política democrática”. Mais adiante no mesmo texto, é possível entender melhor o que se entende por isso: nele será disponibilizado “todo o acervo documental referente aos oito anos de mandato do presidente Lula”.

Curioso e preocupante que justo o PT se arrogue o direito de portar a memória democrática do país.

Lembremos que esse é o partido que: expulsou seus deputados que votaramem Tancredo Neves; recusou-se a assinar a Constituição, marco da redemocratização, em 1988; e combateu duramente duas das maiores conquistas da nossa história recente, a estabilidade monetária e a austeridade fiscal, chegando ao ponto de ir à Justiça contra o Plano Real, em 1994, e contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2001.

O PT nunca fez uma autocrítica oficial quanto à sua posição nesses momentos cruciais do nosso amadurecimento democrático. Será que podemos confiar a ele o papel de guardião da memória coletiva de momentos como esses?

Tudo indica que estamos diante de uma privatização, não só de um terreno, mas da própria democracia brasileira. Afinal, é da natureza do PT apostar na confusão entre o público e o privado para fortalecer seu projeto de hegemonia no país.

Que melhor forma de fazê-lo do que garantir um espaço -e com dinheiro público- onde possam transmitir aos alunos de escolas públicas a doutrina petista segundo a qual a história do Brasil começa em 2003?

Quem sabe no portão de entrada do futuro museu algum companheiro se lembre de inscrever as palavras “nunca antes nesse país”…

O Instituto Lula pode não ter fins lucrativos, mas tem fins políticos bem claros. Não podemos esquecer que Lula continua extremamente ativo na política nacional e municipal. Já declarou que se envolverá de cabeça na campanha desse ano.

Que ninguém se engane: ceder esse terreno equivale, na prática, a doar o dinheiro dos contribuintes paulistanos para um partido político cuja prioridade número um é reconquistar a prefeitura da cidade.

São Paulo merece sim um Memorial da Democracia digno do nome. Um museu que registre as conquistas do povo brasileiro na luta contra o autoritarismo, que faça justiça à memória de líderes como Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso e do próprio Lula.

Essa seria sim uma destinação nobre ao terreno. É evidente, entretanto, que esse é um empreendimento que só pode ser implementado e administrado por uma organização tecnicamente qualificada, isenta e apartidária, não por um partido político, para que reescreva a história do Brasil à sua maneira.

Estaríamos dando alguns passos atrás na consolidação de nossa combalida democracia.


FLORIANO PESARO, 44, sociólogo, é líder da bancada do PSDB na Câmara Municipal de São Paulo

 

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Comentários

  • Paula disse:

    Guilherme tenho uma opinião bastante sólida sobre o PT (desculpe-me os petistas, respeito-os, mas essa é a minha opinião), que é que seja todo mundo igual para todos, desde que, para nós (petistas) seja o melhor. Mais uma vez a liderança do PT quer usar a máquina estatal para auto promoção, em benefício próprio. E acho que isso pode até acontecer, partindo do principio que com os bolsas tudo eles conseguiram o apoio de 60% da população, pessoas com perfil C, D e E. As vezes, é mais facil assistir BBB a ter que assistir essa corrupção toda feita no governo. Forte Abraço, Paula.

    • Guilherme Bara disse:

      Obrigado Paula pelo comentário.
      Achei oportuno postar este artigo, mesmo não sendo inédito, porque achei um assunto importante e sei que nem todo mundo lê a Folha.

  • Eliana disse:

    CHEGA! Chega de sermos explorados!
    Quer um terreno para construir um Instituto e ainda próprio? Então compre!
    Por que os cidadãos haveriam de pagar?
    Agora um Memorial da Democracia ou um Museu da História da política do Brasil, sim, com certeza São Paulo merece e precisa, afinal temos uma história, cultura e folclore tão ricos e diversificados que todo brasileiro merece entrar em contato, afinal nem todos leem a Folha!
    Obrigada!

    • Guilherme Bara disse:

      Concordo com você Eliana, mas pelo jeito a cessão da área vai ser aprovada. TUdo para aproximar, politicamente, o Kassab do PT. Foi triste ler o artigo do ver José Police Neto na Folha, Que é tão esclarecido, fazendo o joguinho do Kassab. Para quem teve a oportunidade de ler, percebeu o quanto fraco foi o argumento do Neto.

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