Pedal como política pública

Por: Humberto Dantas – doutor em ciência política

Nasci num país que assistiu na década de 80 uma das mais brilhantes campanhas publicitárias do mundo. A empresa se chamava Caloi e produzia bicicletas, vendida à época como um objeto de consumo que representava o sonho de todas as crianças. Tive três bicicletas em minha vida. A última foi uma Caloi 10, uma máquina de correr. Fui atropelado aos 15 anos em Pinheiros, voltando da escola. Um milagre não levou minha vida embora, mas o nariz torto é resultado do acidente. Os agraciados com as bicicletas, ou não, cresceram e passaram a viver o milagre do acesso ao carro e à moto, ou seja, do motor, do combustível, do seguro, da poluição. Onde está a bicicleta? Onde se perdeu o nosso sonho?

 Faz alguns anos a bicicleta ressurgiu fortemente como opção para o caos urbano. Mas não em São Paulo, onde o governo utiliza seu jornal oficial para sugerir que tal modal é perigoso – reportagem desacreditada pelo próprio poder público quando percebeu a besteira que falou. Em países desenvolvidos a bicicleta é levada a sério. Faz algumas semanas resolvi fazer um biketour com minha mulher em Barcelona. Confesso que no início lembrei-me do acidente de 1990. Mas logo percebi que ali a história é outra. Bicicleta tem faixa própria, é respeitada, até semáforo exclusivo possui. Coisa de cidade que pensa, que vai além, apesar de ter uma rede de metrô formidável.

Mais alguns dias e cheguei a Paris. Lá o trânsito é caótico, e os franceses são estúpidos demais atrás do volante. Ainda assim, lá estavam as bicicletas, a despeito de 14 (QUATORZE) linhas de Metrô e dezenas de estações. Franceses vão ao trabalho de terno, gravata, saia, vestido, pedal e capacete. Faixas existem e a sensação de segurança, apesar de menor que a vivida em Barcelona, existe. Mas a surpresa maior estava reservada para uma reportagem que li numa revista em vôo entre essas duas cidades. O país atende pelo nome de Dinamarca, e a cidade é Copenhague. Lá, cerca de 90% dos cidadãos possuem bicicletas, e mais da metade dos deslocamentos dos cidadãos que moram no centro são feitos de bicicleta. Na região metropolitana como um todo, um terço. Lembremos que na Dinamarca neva, e ainda assim é possível ver as magrelas lá, em meio à paisagem branca e gelada. Em uma equação feita por economistas locais concluiu-se que cada quilômetro rodado de carro representa uma perda de R$ 0,20, enquanto no caso da bicicleta ganha-se R$ 0,40. Poluição, saúde, combustível e uma série de tormentos urbanos entram nessa conta. E nós por aqui? Continuamos pagando a conta. Até quando?

Quando devemos dizer basta?

Por: Humberto Dantas

O Brasil carece de força suficiente para dizer basta. E não me refiro aqui à fortaleza associada à política: nesse campo chego a suspeitar que somos otários. Quero falar dos consumidores brasileiros, que não conseguem ser bem atendidos em aspectos básicos. Vou citar dois exemplos que devem servir para muitos dos cidadãos de classe média desse país. Outros infinitos poderiam ser ofertados.

Tenho um celular pós-pago que me consome cerca de R$ 3,0 mil por ano. Para usuários agressivos o valor é pequeno, mas é imensamente maior que a média de gastos nacionais com esse tipo de serviço. Possuo um plano com bons recursos: internet, taxa fixa para recebimento de ligações em roaming nacional, torpedos ilimitados e minutos gratuitos para números da operadora que escolhi. A web começou a funcionar faz poucos meses em minha linha, fruto de ANOS de reclamações que não resultavam em absolutamente nada. Queixas na ANATEL foram várias. Até que um dia funcionou. Detalhe: não são poucas as horas da semana que em plena cidade de São Paulo fico sem sinal, sem internet, sem qualquer contato telefônico. E o que faço para resolver tudo isso? Aguardo para ser atendido, abro reclamações na agência responsável pelo serviço e me desgasto. Tanto que resolvi parar de reclamar, pois estava me fazendo mal. Fui vencido pela insistente incapacidade de a TIM me ofertar aquilo que me vende. Sou vítima de algo que sequer existia quando nasci e hoje me aprisiona profissional e familiarmente.

Viajo de avião com certa constância. Muito mais do que eu gostaria, mas não posso me queixar, pois adoro o que faço profissionalmente, e quando quero relaxar de verdade gosto de ir para longe. Pois bem, faz alguns meses que não me lembro o que é decolar ou aterrissar em Congonhas (São Paulo) sem passar algum tipo de aborrecimento. Na última semana a Gol arremeteu e a TAM passou pelo aeroporto e nos levou para Santos, para uma visita de reconhecimento aéreo ao mar enquanto reconfirmava a autorização de pouso já anunciada aos passageiros. Para sairmos do chão, atrasos mínimos de 15 minutos, que são sempre tolerados, sendo a imensa maioria superior a isso. Em São José do Ripo Preto é raro tomar um voo na hora, e o aeroporto não oferece a mínima estrutura. Em Cumbica as esteiras atrasam cerca de 40 minutos para liberar malas. Em Viracopos, a área de embarque num dia de frio e chuva nos lembra um parque aquático: impossível sair seco. Em Natal-RN goteiras inundam a área de embarque internacional, que não comporta meio avião de grande porte. Em Florianópolis o aeroporto é pequeno e mal organizado. O governo disfarça, privatiza e, certamente, passará vergonha ao longo da Copa do Mundo – utilizada como desculpa para estrutura um país que não precisava de evento desse porte, apenas de condições mínimas de respeitar quem já vive aqui e paga por tudo o que não funciona adequadamente.

Lembro-me que na década de 90 surgiram diversas agências que prometiam milagres em relação à qualidade do que a iniciativa privada se comprometia a oferecer de forma adequada ao público. Surgiu um serviço louvável de atendimento ao consumidor chamado PROCON e parece que estávamos caminhando para algo civilizado. Pois bem: não somos educados sobre nossos direitos de consumidor nas escolas, as agências estão sucateadas nas mãos dos partidos políticos e o país parece que ainda não encontrou uma forma de dizer BASTA. Isso porque me restringi a dois exemplos. Já imaginou se eu fosse falar dos planos de saúde, das tarifas bancárias, da qualidade da TV aberta etc. Triste país incapaz de dizer BASTA!