Como a ciência, a arte, a filosofia

Por Soninha Francine

                 Aficionada por política que sou, acredito que a política precisa do envolvimento do maior número possível de pessoas para que seja realmente representativa e representante do conjunto da sociedade, em toda sua diversidade e complexidade (não vou caçar palavras para evitar o eco, desculpem! rs).

                 A menos que inventem um modo melhor de resolver conflitos e escolher representantes e lideranças (volto a isso depois).

                A partir dessa afeição e convicção, sempre incluí entre as minhas causas a tentativa de atrair mais gente para a tal da política. Jovens principalmente, mas não porque eu acho que eles são os menos interessados, como se convencionou dizer – os adultos também não são muito interessados não… Mas sim porque trabalhei em veículos de comunicação (MTV, TV Cultura) dos quais os jovens eram os principais espectadores… E mais dispostos a ouvir um VJ/apresentador do que um professor ou político rsrs.

                No começo, eu ficava no básico: “Você pode não gostar e não se interessar por política… Mas ela vai ter muita influência na sua vida assim mesmo. Do buraco na rua à qualidade do ar que você respira – literalmente”. Chegando à conclusão óbvia: se você não acompanhar, não participar, pior pra você.

                Hoje em dia, eu tenho ido além disso. Além de chamar a atenção das pessoas para a “utilidade” da política, quero convencê-las também da sua… nobreza. Meio ingrato, né? Mas como eu ACREDITO nisso, fica mais fácil rs.

                Política é o meio que os humanos desenvolveram, ao longo de séculos de civilização para resolver disputas, conflitos, divergências. E para eleger representantes e líderes. No começo, nossas disputas eram resolvidas no tacape. Os mais fortes, certamente, lideravam. Hoje somos mais… civilizados.

                Outros animais se organizam em sociedades, algumas espantosamente complexas. Mas no formigueiro, cupinzeiro ou colmeia, por exemplo, as tarefas são atribuídas geneticamente… Soldados, operários, rainha… Não são os indivíduos que escolhem. E, exceto nos desenhos animados, não há planos, ambições, projeto de vida.

                Nas sociedades de mamíferos, há disputa pela liderança. Dois machos saem na porrada e o mais forte comanda o bando… Dúvidas quanto ao direito a determinado território também são resolvidas assim.

                Nós, humanos, ainda resolvemos algumas coisas assim, na porrada. Até mesmo nas casa legislativas (#vergonha). Mas TEMOS instrumentos mais sofisticados. Podemos argumentar, debater, fazer concessões ou não, decidir por consenso ou votação.

                A política é uma construção e uma conquista da humanidade tanto quanto a arte, ciência, letras, ciência, tecnologia, filosofia. Em torno de todas elas pode haver disputas pouco civilizadas, algumas de suas aplicações podem ser bastante questionáveis, mas são elementos que nos distinguem dos outros seres vivos com quem compartilhamos este condomínio (= planeta).

                Portanto… Política é nobre sim! Embora “nobreza” seja sinônimo, historicamente, de algumas das piores práticas sociais e políticas rsrs. Vamos dizer, então, que a política é bela. Por mais penosa, deturpada, repulsiva que seja às vezes. Não foi ela que foi uma má ideia. Mas sabe como é, nós humanos conseguimos transformar quase qualquer coisa em uma arma, mas política é o tipo de disputa que é o CONTRÁRIO de guerra.

                Esqueçam a pólvora, desistam da fissão nuclear… Voltemos às palavras. Alguns querem recuperar seu prestígio invocando uma “nova política”. Talvez seja bom recuperar o que ela tem de mais antigo.

Soninha Francine, ex-vereadora, futura… Bom, isso é o que veremos rs.  

Paixão

Por Soninha Francine

Italianos tem a fama – justificadíssima – de serem barulhentos. Mas a família do pai (o mais velho de nove irmãos) só fazia escândalo nas ocasiões festivas – aniversário, Natal, casamento. Aí cantavam (cantam) em altos brados, envergonhando os adolescentes (rs). Nos domingos “normais”, em que nos reuníamos todos para o almoço na casa da vó Julieta, falava-se em tom de voz moderado. Até porque sempre tinha uma criança pequena dormindo no quarto pegado à sala, então quando alguém erguia a voz a mãe desesperada chiava (pssssssiu) com medo de perder aqueles minutos de sossego…

Já a família da minha mãe, portuguesa, era muito ruidosa. Ô gente que fala alto! (Mania que eu trago nos genes…). As conversas na copa, ao redor da mesa, eram tão exaltadas que meu tio brincava “qualquer dia os vizinhos chamam polícia, pensando que estamos nos pegando”. Mas aqui e ali eles deviam ouvir as gargalhadas e perceber que era só um jeito exagerado de ser.

Mas havia ocasiões em que era briga mesmo. Alguns temas ouriçavam os ânimos: sexualidade (minha mãe teimava em discutir com minha avó a igualdade de direitos entre homens e mulheres, assegurando que eu e meu irmão seríamos criados com as mesmas informações e valores em relação à vida sexual), política…

Quando minha mãe começava a falar sobre não impor que eu me casasse virgem, a discussão só não ia mais longe porque meus avós acabavam saindo da mesa, vexados. Mas quando era política, ninguém arredava pé. Pensando bem, não era difícil minha mãe recolher as coisas furiosa, puxar os filhos e ir embora de volta pra casa, espumando.

Eu ficava embasbacada com aquelas reações. Via-se que pai e mãe ficavam com muita raiva um do outro. Eles falavam de tantas coisas que eu não entendia, o que tornava a cena mais intrigante.

Mais tarde eu criava coragem de perguntar para minha mãe: “O que é subversivo? E comunista? E censura? Tortura? Repressão? Golpe? Carestia? Anistia?”. Tinha uns seis anos, ouvia as explicações com muito interesse e… ficava do lado da minha mãe. Como meu avô poderia acreditar no governo e concordar com as coisas que eles faziam?

Meu avô era um homem muito correto, muito caxias. Como outros tantos, chegou de Portugal paupérrimo. Puxou carroça de pão e foi subindo, subindo, até ser dono de padaria. Nenhum nababo, mas com vida confortável. Era muito grato ao país que o acolheu e estendia esse sentimento ao seu governo, suas autoridades… Entendia oposição como desrespeito, ingratidão. Era mais “patriota” do que qualquer brasileiro nato… O ufanismo do “Eu te amo meu Brasil”, “Ame-o ou deixe-o”, caíam bem para ele. E acreditava nos militares; temia que comunistas invadissem sua casa e confiscassem o que ele havia amealhado ao longo de décadas…

Minha mãe, por sua vez, se indignava com as mentiras – “Esses filhos da p. vão dizer que o Herzog SE MATOU? Desgraçados”. Com as músicas censuradas. Com o exílio. Com a opressão e a repressão. Eu me identificava muito com sua revolta, sua comoção.

Ela era uma professora de inglês, classe média, que ia de casa para o trabalho e nada mais. Nunca fez parte de um movimento organizado (a não ser décadas mais tarde, quando ajudou a organizar a Associação de Professores da Cultura Inglesa ). Não carregou faixas, não pintou frases em muros, não participou de reuniões clandestinas, não foi a passeatas.

Mas dentro de casa, na frente da televisão, folheando revistas, ela respirava e transpirava política. Ora erguia a voz, ora cobria a boca com as mãos horrorizada, triste, chocada. Nesse ambiente, com essas emoções, com as explicações que justificavam o arrebatamento, cresci gostando de política. Lendo jornais – matérias, editoriais, cartas dos leitores, colunas. Lendo as entrelinhas das Cartas da Mãe do Henfil na última página da Istoé. Decifrando as metáforas nas músicas do Chico. E ficando fula da vida (há uns vinte anos não se usa essa expressão rs) com o que eu via na rua (as favelas na beira da Marginal Tietê… uma delas, se não me engano, era chamada de “Ordem e Progresso”), nos livros, nos filmes (a seca, a fome, a miséria).

Resultado disso tudo foi amor e ódio à política. O ódio é compartilhado com muita gente, mas o amor, bem mais raro, “exótico”, é a minha reação ao ódio… Não aguento ficar apenas lendo, ouvindo, olhando. Às vezes desanimo, penso em mandar tudo à m., cuidar só da minha vida. Falar de música, de esporte, participar de programas de debates na TV a cabo… Mas quem disse que eu aguentaria?

Tem gente que, com ódio, vai para a guerra. Minha ira, minha paixão, me levam a “pegar em armas” – as armas sofisticadas que o ser humano desenvolveu para resolver conflitos, divergências, impasses, reunidas sob o maltratado título de “política”. Eu gosto de política. Eu sou política e tenho orgulho de dizer.