Empresas, diversidade e a questão do preso

Por Reinaldo Bulgarelli

“O que as empresas podem fazer pela reabilitação do preso” é o título de uma publicação do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, lançado em 2001 e produzido por Roberto da Silva, pedagogo, mestre e doutor em educação. O prefácio foi de José Pastore, professor da USP, especialista em Sociologia do Trabalho e com vários livros publicados, incluindo o recente “Trabalho para Ex-Infratores”, da Editora Saraiva, 2011.

A publicação do Instituto Ethos está disponível no site da organização e a publicação do professor José Pastore pode ser encontrada nas livrarias.

Apesar da publicação do Ethos datar de 2001, a pesquisa recente que realizei para o Instituto Ethos junto às empresas que participam do estudo “Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil”, também do Instituto Ethos em parceria com o IBOPE, nos diz que apenas 6% delas consideram ex-presidiários em suas ações de diversidade e inclusão.

O “Perfil” de 2010 está disponível no site. Já a pesquisa que realizei pela Txai está disponível no capítulo “Evolução das Práticas Empresariais para a Valorização da Diversidade” da publicação “Empresas e Direitos Humanos na Perspectiva do Trabalho Decente – Marco de Referência”, de responsabilidade de Ana Letícia Silva e Mariana Parra, disponível no site do Instituto Ethos.

O tema dos presos e dos egressos ou ex-presidiários, todos termos questionáveis e em constante processo de construção e reconstrução conforme a dinâmica social estabelece, parece que não entrou efetivamente na agenda do mundo empresarial, apesar de sua relevância, urgência e impactos para a vida de todos no país.

É por isso que o Secretário Municipal do Desenvolvimento Econômico e do Trabalho (SEMDET), Marcos Cintra, propôs a realização do 1º Seminário “Oportunidades de Trabalho, Emprego e Renda para Egressos dos Sistema Prisional na Cidade de São Paulo”, a ser realizado ainda em 2012. Mais adiante volto a escrever sobre os resultados deste evento no meu blog “Diversos Somos Todos”. Pelo site da SEMDET é possível saber quando o evento será realizado. A Txai, minha empresa de consultoria, está realizando o apoio técnico do Seminário e eu farei a mediação do diálogo com os convidados.

Como sempre tem feito nestes seminários que tratam de variados temas de diversidade com sua interface com trabalho, emprego e renda, o Secretário Marcos Cintra deverá fazer a abertura situando o tema na agenda da pasta e da sociedade brasileira. Ele tem feito discursos históricos nestas ocasiões, mas que também demonstram que a sociedade amadureceu no tratamento de temas complexos. Já discutimos em outros seminários a questão da mulher, da pessoa com deficiência, da juventude, do negro, da orientação sexual e identidade de gênero.

Na plateia, como nos outros seminários, teremos os especialistas no tema, ativistas, profissionais do setor público e muitos representantes de empresas, tanto daquelas que já atuam com a questão prisional em geral, como aquelas (grande maioria) que querem entender qual é o tema, o que pode ser feito e quais as possibilidades para saírem de lá com uma proposta concreta nas mãos (e no coração).

O Seminário é importantíssimo porque todos os especialistas indicam a importância do trabalho, emprego e renda como elementos essenciais na reinserção do preso no convívio social em outros patamares e com outras condições, sobretudo aqueles 69% que têm ensino fundamental incompleto ou completo, sem falar nos 8% de analfabetos e os 10% com ensino médio incompleto. Estes dados estão na publicação do professor José Pastore, citada acima (página 24).

Ainda segundo José Pastore, 40 mil presos estavam em programas de educação e capacitação técnica, quando havia no total, segundo dados oficiais de 2009, 480 mil pessoas encarceradas nos presídios. Os dados devem ter mudado de lá para cá, mas essa proporção talvez tenha permanecido.

“Que razões, entretanto, teriam o investidor e o empresário para estreitar suas relações com uma prisão e lá investir seu capital financeiro e humano? Da mesma maneira, que razões teriam seus executivos e funcionários para dedicar parte de seu tempo, na forma de trabalho profissional ou voluntário, dentro de um presídio, atendendo pessoas que foram ali recolhidas exatamente por violarem as regras de convivência social?”, pergunta o manual do Instituto Ethos.

No seminário, espera-se responder a esta questão e também a muitas outras relacionadas ao cenário atual dos presos e egressos no país. O que tem sido realizado, quais são as condições para as empresas se envolverem com o tema e o que podem realizar para contribuir de maneira socialmente responsável para com as comunidades locais e a sociedade brasileira?

Algumas afirmações das publicações citadas devem estar presentes no diálogo, como a citada importância da capacitação profissional e do trabalho, mas também a questão das práticas serem realizadas na perspectiva da responsabilidade social e não do assistencialismo. A responsabilidade social das empresas pode contribuir decisivamente para quebrar um círculo vicioso no qual a formação de pessoas estigmatizadas e segregadas nada contribui para um presente e um futuro sustentáveis.

Diz o citado manual do Instituto Ethos que “somente uma ação integrada, que reúna esforços de toda a sociedade e promova a reflexão e a discussão de seus diversos aspectos, permitirá a descoberta de soluções.” É isto que estamos fazendo com a realização deste seminário. Participe!

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