Eu não sou Charlie! E você?!

Por Guilherme Bara

Presenciamos mais uma vez um ataque terrorista, desta vez na capital cultural da Europa, Paris.

A forma fria e calculada que os membros do grupo terrorista articularam e executaram o plano faz com que nos indignemos e nos mobilizemos contra estes grupos extremistas que se vangloriam destes tipos de ataques que levam sofrimento a tanta gente.

Exposta minha indignação, gostaria de abordar o outro ponto deste caso.

Vejo milhares de pessoas se manifestando a favor do jornal Charlie Hebdo, tendo como mote principal a liberdade de expressão.

Neste ponto quero deixar clara minha posição: Eu não sou Charlie!

Não posso ser a favor de piadas ofensivas contra pessoas ou grupos em função de sua etnia, religião, deficiência ou qualquer outro marcador identitário.

Há pouco tempo acompanhamos aqui no Brasil a enorme onda de repúdio ao humorista Rafinha Bastos pelo fato de ele ter feito uma piada que envolvia a cantora Wanessa Camargo. Ali todos diziam que o humor deveria ter limites e que este limite passava pelo respeito às pessoas.

Este mesmo humorista foi acionado na justiça por fazer piadas extremamente inadequadas com pessoas com deficiência intelectual.

Fico surpreso em ver pessoas que, na época, condenaram o Rafinha, agora, clamarem pela liberdade de expressão no caso Charlie.

Em favor do periódico francês, muitos dizem que ele faz piada com todas as religiões, desta forma o isentando parcialidade.

Sim, ele, de fato, satiriza todas as religiões, prática a qual já discordo.

Este comportamento se agrava quando sabemos que a religião mulçumana é menos tolerante a estes tipos de brincadeiras e que grupos radicais islâmicos se aproveitam destes fatos para executarem ataques terroristas, justificando assim suas existências e atraindo mais financiadores e jovens simpáticos a suas supostas causas.

Este tipo de sátira também contribui para reforçar o já enorme preconceito existente na Europa contra os mulçumanos, que são na sua extrema maioria, formados por pessoas de paz.

São de talento discutível os humoristas que dizem que está cada vez mais difícil fazer humor. Pobres humoristas que só conseguem ser engraçados tendo como linha de atuação a fomentação do preconceito.

Não podemos deixar que nossa indignação a ações terroristas covardes sirvam para dar apoio a publicações deliberadamente irresponsáveis que contribuam para o fortalecimento do preconceito contra diversos grupos sociais.

Eu não sou Charlie! E você?!

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Comentários

  • Marina disse:

    je ne suis pas Charlie, seguindo o bordão que virou moda no Face e o contraponto de Guilherme é fantástico para que possamos refletir antes de tomar alguma posição passional.

  • Thiago Caixeta disse:

    Recente li uma entrevista do Renato Aragão dizendo que antigamente os negros, gays, loiras, pessoas com deficiência não se importavam com as piadas preconceituosas… Um absurdo ele achar q do dia para noite as pessoas mudaram de opinão. #eunãosoucharlie

  • Roberto Araújo disse:

    Guilherme, respeito seu ponto de vista e gostaria de saber: vc acha que é possível produzir charge que seja cultural, religiosa, étnica e politicamente correta e com responsabilidade? Teria graça? Carta ao leitor de Veja desta semana tem um texto muito interessante “Nós e eles” , sobre o atentado ao Charlie Hebdo. Caso não tenha tido a oportunidade de ler, recomendo. Acho que o terrorismo é inaceitável e deve ser combatido com todas as armas da civilização, inclusive a sátira.

  • Rafael Salles disse:

    Gui vou discordar de você desta vez.
    Em minha opinião a sociedade Francesa nas ruas mostrou que a liberdade de expressão é um direito inviolável, culpar as vítimas do atentado terrorista é a mesma coisa que culpar uma mulher por se vestir da forma que julgar correto e ser estuprada.

    No mundo ocidental todas as religiões podem ser praticadas livremente e consequentemente sofrerem críticas.

    Sou a favor de toda forma liberdade de expressão.
    Abs

    • Guilherme Bara disse:

      conforme deixo claro no artigo, condeno qualquer ato terrorista e nem de longe responsabilizo os jornalistas pelo atentado. Analisei de forma separada a questão do apoio ao estilo do Charlie Hebdo. Sou a favor da liberdade, porém com responsabilidade. Caso contrário ninguém poderia pedir a caçassão do Bolsonaro por ele ofender publicamente a deputada no plenário.abraço Rafa!

  • Regis disse:

    Precisamos de limites!
    Nenhum ato terrorista justifica, matar pessoas é inaceitável sempre!
    Ser ou não Charlie não é a questão, o caso é ter respeito pelas pessoas e aquilo que elas acham sagrado e inviolável.

  • Fadel disse:

    Como descendente de libanês sou desde criança atento às discriminações de toda sorte. Meus avós maternos – sírios e cristãos -, bisavós do Guilherme, se retiraram da Síria pela intolerância religiosa dos muçulmanos a afligir com violência. Há algo de muito ruim como humanidade neste pessoal todo. A forma como consideram as mulheres é absolutamente inaceitável. A Bíblia também consta violência quando menciona o apedrejamento dos que blasfemam. As religiões todas estão longe de nos dar a paz de espírito. Que é essencialmente do mais profundo ser de cada um. Ao destratar, por meio da sátira ou outra maneira qualquer não redentora, não construtiva, só faz por agravar os ânimos já beligerantes. O que fazer????? Agredir, jamais. Ações pacifistas, tipo Gandhi, tipo Martin Luther King, tipo Papa Francisco, sim. E para os que não se dão a esse convívio de paz, de verdadeira humanidade, manter distância silenciosa, e até confinando-os às suas origens. Não merecem a companhia dos que os acolhem para conviver.

  • Reinaldo Bulgarelli disse:

    Eu não me senti convidado a sair por aí dizendo que eu era Charlie, apesar de profundamente impactado pelo atendado e com muita indignação contra o fundamentalismo religioso. Seu artigo, que só consegui ler agora, explica o que senti. E que triste esse momento brasileiro (mundial?) de polarização. Se você não é Charlie, no sentido que você nos trouxe, é a favor do terrorismo e está dizendo que os jornalistas foram culpados pela própria morte? Se você é Charlie também não quer dizer que está a favor da chacota com a religião alheia e que está validando todo e qualquer tipo de humor. O Renato Aragão, com quem tive o privilégio de conviver ao trabalhar na área dos direitos da criança, estava desatento e indiferente, como tantos outros, ao clamor por um humor com menos discriminação (é mais do que apenas preconceito). O clamor aumentou e esses humoristas da velha guarda não conseguiram ficar indiferentes. Os atuais, que você citou, acho que conduzem suas carreiras, assim como certos pastores, para aparecer e ganhar espaço justamente execrando as minorias. Triste do humorista que vive da humilhação dos outros e não consegue fazer graça de outra forma. Triste de quem só consegue rir se o humorista humilhar negros, gays, portugueses, judeus…

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