Por onde se deve começar a inclusão?

Por Reinaldo Bulgarelli

Muita gente, mesmo aqueles que trabalham com inclusão de pessoas com deficiência, caem nas armadilhas do círculo vicioso da exclusão. Uma delas diz respeito à crença de que o mundo atual deve ser jogado fora para se iniciar tudo em outras bases. Como isso não é possível, dizem que o fio da meada é a educação, de preferência a educação infantil – creche e pré-escola.

Se estamos inseridos num círculo vicioso que gera exclusão, não há fio da meada e nem a possibilidade ética de dizer para as gerações atuais que tudo está perdido e que voltem para casa porque apenas as novíssimas gerações terão oportunidades. É proposta autoritária, paternalista (supõe que haja deuses cuidando da educação) e impossível de realizar ou tornar realidade.

Os círculos viciosos são quebrados em qualquer lugar ou momento. No caso das pessoas com deficiência, estamos vivenciando exatamente essa situação. A legislação que impôs reserva de cotas para elas no mercado de trabalho não esperou o mundo se acabar ou começar de novo para interferir na realidade. Focando num dos momentos da vida das pessoas, a inserção no mercado de trabalho, está gerando, por sua vez, impactos positivos na família, na educação, na comunidade e em vários outros aspectos da vida em sociedade, como o transporte, comunicação, turismo, atitudes e comportamentos de todos.

Crianças, jovens ou adultos com deficiência, ao perceber que há agora essa possibilidade de inserção no mercado de trabalho, sentem-se motivados a estudar, a ganhar espaço no mercado de consumo e dispostos a brigar por direitos, a rediscutir a qualidade das relações familiares, a vida afetiva, a maneira, enfim, de ser e de estar no mundo.

E se o processo de inclusão começasse pela creche? Também aconteceria o mesmo, mas acredito que a escolha, casual ou proposital, pelo mercado de trabalho conferiu ainda mais força para essa transformação do circulo vicioso em um circulo virtuoso que a tudo e todos transforma. Ter um trabalho e receber uma renda no mercado formal confere à pessoa um status que a transforma mais rapidamente em sujeito da própria história.

Quem não tem boa vontade para incluir e prefere posturas paternalistas, se queixa que as pessoas com deficiência estão chegando sem preparo algum para trabalhar. Não percebem que suas empresas estão fazendo parte de um momento histórico e que estão em plena transformação os conceitos e as posturas que tratavam do tema da deficiência na sociedade.

Se há um investimento necessário para que uma parcela deste segmento possa ser incluída com maior qualificação profissional, também há efeitos produzidos pelo círculo virtuoso que interessa a todos: aprendizados que a exclusão ou apartação não permitiam que fossem realizados; oportunidade de todos de rever posturas; oportunidades para tornar suas empresas mais acessíveis a todos e, do ponto de vista econômico, a ampliação do mercado interno.

Hoje ainda temos menos de quinhentas mil pessoas inseridas no mercado de trabalho por meio da legislação de cotas. Estou sendo generoso neste número para arredondar. Imagine quando tivermos dez milhões ou mais de pessoas com deficiência no mercado formal de trabalho, ou seja, ganhando um salário, protegidas de muitas maneiras (fundo de garantia, plano de saúde etc.), deixando a informalidade com seus baixos salários, tendo oportunidades de se desenvolver na carreira, de constituir e manter família, de consumir melhor, de tirar férias, viajar, de estudar mais, de qualificar a oferta e aquecer mercados de produtos, serviços e atendimento que as considerem? Basta pensar sobre onde estão hoje e em quais condições para ver a importância deste salto qualitativo para elas e para toda a sociedade.

Em tempos de crise ou de prosperidade, nenhuma empresa pode desconsiderar o mercado interno. Tudo que coloca barreiras para o desenvolvimento do mercado interno não faz muito sentido, gera custos imensos para as empresas e para a sociedade. Tudo que contribui para o enfrentamento e erradicação de barreiras pode gerar ganhos significativos para todos, não apenas financeiros, lucro, mas também no campo dos aprendizados para sermos uma sociedade melhor, mais inclusiva, respeitosa e sustentável.

Assim, empresas que choram por terem que investir na inclusão de pessoas com deficiência, deveriam se lembrar de que estão participando ativamente na construção deste circulo virtuoso no qual seu funcionário passa a ser também seu consumidor ou cliente, assim como é cliente de outras empresas, aquecendo a economia de muitas maneiras. Há quem pense tão pequeno e que é tão imediatista que, mesmo diante das evidências, prefere reclamar e delegar a prazerosa tarefa de investir em seu próprio mercado interno para o Estado, para as ONGs, para as famílias ou para as próprias pessoas com deficiência.

Felizmente há sinais de sanidade no mundo empresarial atual e para percebê-los basta prestar atenção nas empresas que cumpriram a legislação de cotas. O que as motiva, como conseguiram realizar o que outras dizem ser impossível, como lidam com a diversidade e que impactos a inclusão está gerando na empresa? É um assunto que eu gostaria de ver tratado em alguma revista que fala do mundo empresarial, negócios, economia. Quem sabe este artigo não vai parar dentro de uma delas?

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Comentários

  • anita hitelman disse:

    Reinaldo- gostei muito do seu artigo porém gostaria de saber como fica a inclusão das pessoas idosas. Pois é um contingente de pessoas cada vez maior, gente muito produtiva, capaz, lucida, inteligente, experiente e marginalizada! de que adianta aumentar a esperança de vida e sua qualidade se é para não fazer nada?

  • Reinaldo Bulgarelli disse:

    Anita, como respondi a você pelo Facebook, os dados sobre desemprego indicam que o mercado de trabalho tem aceitado mais os “idosos” (sobretudo acima de 50 anos) do que os jovens. Por isso a lei de cotas para os jovens (Lei da Aprendizagem). O preconceito contra os mais velhos é grande, mas o mercado precisa crescer e com gente mais experiente, por isso correu para os mais velhos. Nem se compara a questão da pessoa com deficiência com os trabalhadores com mais de 40 anos sem deficiência. Concordo que é um tema cada vez mais importante. No extremo, falando de pessoas efetivamente idosas (com mais de 60 anos), a inclusão de pessoas com deficiência beneficia a todos porque traz consigo, entre outros conceitos, o tema da acessibilidade. Lembro, contudo, que não é preciso contrapor uma situação a outra. Quando somos efetivamente inclusivos e valorizamos a diversidade, nenhuma situação fica esquecida. Diversidade trabalha a qualidade das relações e não os segmentos ou as situações de forma isolada. Sendo assim, ao ser inclusivo com um se é inclusivo com todos. Mas, como você bem faz sempre, tem que participar, dizer, mostrar, se expressar, senão essas questões não vão adiante. O termo do movimento LGBT vale para todos: tem que “sair do armário” porque direitos não se conquistam se fingindo de morto, né?

  • carlos ferreira disse:

    Sr. Reinaldo, muito oportuno seu artigo, contudo faço algumas considerações. Estamos vendo ainda esta semana a hipocrisia do Marketing Social com as questões ligadas ao meio ambiente.
    É certo sim que as empresas passaram a admitir funcionários portadores de deficiências, mas só o fizeram por força da “Lei”. Não vi e não vejo nenhum gesto de compaixão ou solidariedade na maioria das empresas por onde transito.
    Fato interessante deu-se numa empresa que conheço, que apresenta um discurso de inclusão que é de levar qualquer insensível às lagrimas. Certa feita estando para ser admitida uma recepcionista, a área de RH pensou imediatamente numa moça qualificada portadora de deficiência.
    Qual não foi o comentário do Presidente ao saber do fato: ”
    “Tudo bem, precisamos admitir PCDS, mas na recepção?
    Ali precisamos de uma moça geitosinha”… e o cara segue fazendo o mesmo discurso hipocrita que leva todos às lagrimas sem precisar de trilha sonora.
    Inclusão se faz quando temos compaixão (cuidado, compaixão não é pena), quando temos o olhor voltado para o Outro, quando em casa os pais educam seus filhos com valores. Por favor, não me venham com essa de que isto é papel de escola. A escola pode sim fortalecer estes valores, mas não pode assumir a responsabilidade da educação que pertence aos pais, mas ultimamente todos andam muito ocupados e os “zelosos papais e mamães”delegam a educação de seus filhos para babás, vovós, tias, creches e quejandos, e quando a escola manda chamar um pai por conta de um comportamento inadequado de uma criança ou jovem, são ameaçados, humilhados e muitos acabam apanhando.
    Não vamos delegar ao governo e a escola aquilo que é obrigação primeira de quem põe filho no mundo.
    Fazer cidadãos e mais do que colocar o filho numa boa escola, pagar um curso de Inglês, coloca-lo na natação e leva-lo pra comer BigMac aos finais de semana.
    Fica aqui registrada a minha opinião, opinião de quem trabalha com excluídos de todos os tipos.
    Não nos iludamos, algo já foi feito, mas há muito, muito por fazer!
    Obrigado!

    • Guilherme Bara disse:

      Ola Carlos, excelente comentário!!

      • Reinaldo Bulgarelli disse:

        Carlos, há muito para ser feito. Veja que no meu post seguinte eu falei do quanto falta, mantido o ritmo atual das coisas. A construção do circulo virtuoso já está em andamento. Precisamos combinar participação com crítica e crítica com participação para acelerar e dar consistência à construção de novos tempos. Como você mostra, diversidade e inclusão devem andar juntas. Guilherme também falou disso aqui no post sobre sua visita à Alemanha. Mas, nada se resolve em passe de mágica e só com muito trabalho. Vamos em frente.

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