Por uma São Paulo com Mobilidade Humana

 Por Floriano Pesaro  

São Paulo é uma cidade singular, de números estratosféricos: é a sétima maior cidade do globo, com mais de 11 milhões de habitantes; é o coração da sétima economia do Planeta; a Grande São Paulo tem um PIB de US$ 400 bilhões, mesmo valor do PIB das Filipinas, por exemplo. Quando o assunto é frota de táxis e helicópteros, só perde para Nova Iorque e caminha na mesma direção no que se refere a automóveis particulares.

Todas essas referências são símbolos da vibrante e ascendente economia paulistana, mas contrastam – de forma gritante – com o número de opções que a cidade oferece aos que tentam reverter a lógica individualista de se locomover. Muito em breve, a cidade pode parar.

Vejamos: A nossa cidade, de dimensão estadual – tanto em área quanto em população – não oferece mais que 150 quilômetros entre ciclovias e ciclofaixas, o que ainda é muito pouco. Deveríamos ter no mínimo 400 quilômetros. Nova York tem 400 quilômetros de ciclovias para seus oito milhões de habitantes. Em Paris, são 440 quilômetros. Não precisamos ir longe. Em Bogotá, na vizinha Colômbia, são 180 quilômetros. Em São Paulo, estima-se que mais 300 mil ciclistas utilizam as ciclovias, as ciclofaixas e demais meios compartilhados com o pedal. Aos domingos, este número chega a 40 mil ciclistas. 

 A bicicleta tornou-se um importante meio de substituição dos veículos automotores. Não polui o meio ambiente, é saudável, não gera congestionamentos, tem preço acessível, baixo custo de manutenção e não exige combustível. Trata-se de um símbolo do conceito de sustentabilidade. Para incentivar mais pessoas a usar a bicicleta, precisamos ampliar as ciclofaixas e ciclovias além de, principalmente, mudar a cultura do trânsito.

 Há uma crença dominante entre motoristas e motociclistas de que a bicicleta é um veículo menos importante, um ‘intruso’ no espaço urbano. Há um entendimento equivocado de que é o ciclista quem deve se proteger, desviar dos carros e, se possível, sequer existir. Esquecem que, se houvesse uma hierarquia no trânsito, o mais vulnerável é quem deveria ser priorizado – ou seja, aquele que está mais exposto. Não há dúvidas de que nessa matemática o ciclista deveria estar em primeiro plano.

 Os acidentes com ciclistas ilustram muito bem o que ocorre na nossa cidade. Em cerca de uma semana, dois ciclistas morreram em diferentes regiões de São Paulo.

  A confusão nas vias dilui as responsabilidades e favorece uma espécie de “barbárie anônima”. Na feroz disputa por espaço, esquecemos de que a rua é um espaço público. Não existe um que é mais dono do que o outro. A rua pertence a todos. O direito de ir e vir não pode ser proporcional às dimensões do veículo. Os mais fortes e mais robustos não têm prioridade nas vias públicas.

 Além da disputa por espaço, os condutores de veículos estão cada vez mais estressados, utilizando as vias públicas para praticar todo o tipo de incivilidade e de agressão ao outro. É preciso uma mentalidade mais ecológica, que leve em conta a cordialidade e o interesse público.

 Por isso, é preciso reverter a lógica com que a locomoção vem sendo pensada em nossa cidade. É nisso que pensamos quando propusemos a criação da Frente Parlamentar em Defesa da Mobilidade Humana – projeto de nossa autoria aprovado semana passada na Câmara Municipal de São Paulo.

 Com a Frente teremos um espaço para debater as questões que afetam os cidadãos que se deslocam sem a utilização de veículos motorizados, em especial, ciclistas, cadeirantes e pedestres. É fundamental abordar a mobilidade sob a ótica do planejamento urbano, da educação, da cidadania e segurança no Trânsito.

 Historicamente, tentamos resolver os problemas dos transportes metropolitanos pela vertente da infraestrutura viária, e não pela adoção de um modelo focado nos cidadãos e em suas necessidades. Desse modo, já é passada a hora de iniciarmos este debate. A mobilidade deve se inserir em um novo modo de pensar a Política Urbana, que deve estar pautada no tripé: mobilidade humana, desenvolvimento local e sustentabilidade ambiental. E para isso precisamos das mudanças já!

Só se muda o futuro com ações no presente. Vamos começar?

Floriano Pesaro, sociólogo, vereador e Líder da bancada do PSDB na Câmara Municipal de São Paulo

 

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Comentários

  • Melissa K. Chen Ufer disse:

    Floriano, parabéns pela iniciativa. É indiscutível que o uso da bicicleta como meio de transporte é um ícone de sustentabilidade. Fico muito feliz que haja uma mobilização política na direção de viabilizar isso no dia-a-dia da população. Com mais ciclofaixas e mais respeito às bicicletas, teremos mais ciclistas e menos trânsito.

  • Rafael Rocha de Salles disse:

    Parabéns pelo texto Floriano, concordo com seu ponto de vista sobre o tema. Acho também que a iniciativa da prefeitura em relação a ciclofaixa de lazer inovadora, e espero que ela se expanda pela cidade cada vez mais. As ciclofaixas são o primeiro passo para o estímulo ao uso da bicicleta pela população, porém São Paulo precisa ir além e aumentar a quantidade de ciclovias para que estas mesmas pessoas que usam as bicicletas nos finais de semana passem a utiliza-las como meio de transporte no dia a dia.

    • Guilherme Bara disse:

      Concordo com você Rafael que o desafio é fazer a bicicleta ser mais que uma fonte de lazer e passar a ser um meio de transporte seguro nas grandes cidades.

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