Entrevista Guilherme Bara para o site Panorama.JLL.com.br

Acessibilidade facilita inclusão da pessoa com deficiência

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Brasil evoluiu bastante nessa área nos últimos 15 anos, mas ainda são grandes os desafios.

Panorama – Como está o Brasil no tema acessibilidade em geral e nas empresas?

Guilherme Bara – A situação atual é, sem dúvida, muito melhor do que há 15 anos. Tivemos avanços em acessibilidade de forma geral, porque a consciência da sociedade aumentou em relação ao tema. Podemos ver nas ruas, na tecnologia, ônibus adaptados, serviços de suporte no metrô, ferramentas que facilitam exercer um trabalho. Por outro lado, nossa base de comparação de 15 anos atrás era muito ruim. Então, tivemos avanços, mas os desafios são enormes.

O que contribuiu para a maior conscientização da sociedade sobre a acessibilidade?

Guilherme Bara – A Lei de Cotas, criada em 1991, foi muito importante para a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Milhares de pessoas foram para o mercado de trabalho, e isso teve um efeito colateral positivo. Aumentou a convivência, deu visibilidade e evidenciou as necessidades. As empresas e a sociedade tiveram de criar condições para a mobilidade e a produtividade das pessoas com deficiência. A Lei Brasileira da Inclusão, que entrou em vigor em 2015, veio consolidar toda a legislação referente aos direitos da pessoa com deficiência num documento só. E ela vai além da inclusão no trabalho. A presença de personagens cadeirantes e com deficiência visual em novelas e em noticiários e a popularização das paraolimpíadas também ajudaram a desmitificar o tema e a sensibilizar a sociedade, ainda que, às vezes, haja um certo paternalismo ou exagero no tratamento.

Quais as prioridades para facilitar a inclusão de pessoas com deficiência no mundo corporativo?

Guilherme Bara – A tecnologia para uso geral trouxe facilidades. Nas empresas, porém, os desafios para as pessoas com deficiência visual estão ligados às dificuldades de acesso às redes corporativas – por exemplo, intranet, portais internos e ferramentas de gestão ainda não são muito acessíveis para leitores de tela. As pessoas têm dificuldade para se comunicar com os colegas que têm deficiência auditiva por falta de conhecimento básico da linguagem de sinais. Mas o maior desafio é quebrar as resistências que as pessoas têm na hora de contratar uma pessoa com deficiência. Infelizmente, essa resistência ocorre inclusive por parte dos RHs, que deveriam ser os facilitadores dos gestores nesse processo.

De que modo a tecnologia pode ajudar na evolução da acessibilidade para as pessoas com deficiência?

Guilherme Bara – A incapacidade é o resultado da deficiência versus a barreira do meio. Nesse sentido, a tecnologia é uma super aliada para que as pessoas com deficiência vençam as barreiras do meio. Hoje, existem aplicativos que passam textos para a língua de sinais. Graças aos leitores, deficientes visuais conseguem usar o computador e o celular. Mas nem todas as marcas estão preocupadas com isso. O importante é que estamos num processo que não tem volta. A inclusão social das pessoas com deficiência – e, consequentemente, a acessibilidade – tende a ser cada vez maior. Um aspecto interessante é que no Brasil temos um convívio muito melhor, a parte humana aqui está mais evoluída. Na Europa, onde a deficiência física era associada ao herói de guerra, a arquitetura de acessibilidade é muito melhor, mas as pessoas com deficiência vivem mais segregadas. Aqui estamos mais misturados. E isso é muito bom.

Diversidade traz benefícios para as empresas e seus colaboradores

 

Para mais informações: http://panorama.jll.com.br/acessibilidade-facilita-inclusao-da-pessoa-com-deficiencia/

Um universo de possibilidades

Por Andrea Matarazzo

Quando fui secretário de Subprefeituras pela Prefeitura de São Paulo, tinha um problema complexo a resolver: reformar as calçadas da Paulista, a mais visível e querida avenida da nossa cidade. O belíssimo passeio de mosaico português estava em péssimas condições e a lista de reclamações era vasta, mas a principal não poderia ser outra: a mobilidade. Desde mulheres apontando a dificuldade em andar com saltos altos até a quase impossível circulação de cadeirantes.

 No início das discussões, minha ideia era restaurar o mosaico português – pela sua beleza e para não mudar esse visual que é tão conhecido de todos os paulistanos. À época, uma nota a esse respeito saiu em algum jornal. Alguns dias depois sou chamado ao Ministério Público para me explicar sobre uma reclamação feita por uma colega de Secretariado. A então secretária da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (pasta inédita criada pelo José Serra em 2005), Mara Gabrilli, havia feito queixa na promotoria por ter entendido que eu adotaria o mosaico português como pavimento sem tê-la consultado, ou seja, sem ter consultado os padrões de acessibilidade. Confesso que fiquei furioso e por telefone tomei satisfações a respeito do que eu considerava grave, um Secretário reclamando de outro via Ministério Público.

 Eu conhecia pouco a Mara e para falar sobre o mosaico e outros assuntos, combinamos um almoço no centro.  Neste encontro, descobri um universo que eu não achava, mas era, completamente desconhecido para mim.

 Ao descer do carro, tive de empurrar a cadeira de rodas da Mara por cerca de um quarteirão e meio de calçadas feitas em mosaico português.  O trecho era malfeito, o que fazia a cadeira trepidar como uma máquina de massagem. Depois de um pequeno percurso, uma das rodas dianteiras encaixou em um buraco onde faltavam pedrinhas do mosaico, travando a roda e fazendo com que Mara caísse para a frente. Entrei em desespero e não sabia como fazer para recolocar a minha amiga de voltaem equilíbrio. Mara, que tem alta tetraplegia, portanto, nenhum movimento do pescoço para baixo, dando risada, me pediu simplesmente que a puxasse de volta para o lugar. 

 Aquele pequeno passeio, de menos de cem metros, foi o suficiente para me convencer de que as calçadas em uma cidade devem ter algumas características básicas: serem lisas, antiderrapantes, de fácil manutenção. Ou seja, as calçadas precisam ser utilitárias e não decorativas.

 Deste dia em diante, passei a ter um convívio muito próximo com a Mara, que se tornou minha mentora em questões de acessibilidade. Aprendi com ela o quanto era importante a cidade ser inclusiva já que ter acessos é fundamental para todas as pessoas, sejam elas cadeirantes, cegas, surdas e que um dia, com o avançar da idade, todos teremos mais dificuldade em caminhar, enxergar, ouvir ou se movimentar nos lugares. Aprendi o quanto é fácil as construções ou novas obras aderirem ao Desenho Universal e também os imóveis existentes ou equipamentos urbanos em uso adequarem-se às normas.

 Ônibus acessíveis, banheiros idem, calçadas adequadas, conteúdos em versão áudio ou braile, intérpretes de libras disponíveis em locais públicos,  casas de espetáculos modernas e múltiplas, enfim, tudo isso mostra o grau de desenvolvimento de uma sociedade.

 Passei a entender de forma realista e objetiva, sem preconceitos ou misericórdia, as questões ligadas às pessoas com deficiência. Tanto que, enquanto estive na Prefeitura, passamos a fazer cursos sobre o assunto aos subprefeitos, coordenadores de obras e fiscais das subprefeitura.  A partir dessa iniciativa, todas as obras, aprovações, fiscalizações passaram a, obrigatoriamente, levar em conta as normas de acessibilidade. O mais importante é que depois dos treinamentos, as pessoas tornavam-se militantes do assunto. Acredito queem São Paulo avançamos muito. Mesmo tendo ainda infinitas coisas a serem feitas, a partir da criação da secretaria da Pessoa com Deficiência, pelo prefeito José Serra, a cidade deu um enorme passo na direção das cidades modernas e contemporâneas.

 Hoje em dia, em qualquer atividade que exerço, a acessibilidade é uma causa presente. Foi o caso da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Implantamos programas de adaptações em todos os museus e as obras novas, como as Fábricas de Cultura ou o novo Complexo Cultural da Luz, estão seguindo a cartilha da inclusão e serão 100% acessíveis para todos os tipos de deficiência.

Nunca iria imaginar que uma briga no Ministério Público abriria portas tão importantes para mim.  Conhecer mais de perto a Mara Gabrilli, hoje deputada Federal que representa tão brilhantemente nosso Estado, foi uma delas. A outra, por seu intermédio, foi ter acesso ao universo de todas as deficiências e saber como é fácil e ao mesmo tempo imensamente difícil contemplá-lo com políticas públicas. De um lado da balança, fazer as adaptações e implementações necessárias, o que é fácil quando se tem os mecanismos. Do outro, o trabalho diário e incansável de defender a bandeira da inclusão em todas as esferas – públicas e privadas. Tarefa difícil, sim, mas como aprendi, não impossível.