O seu, o meu, o nosso rolezinho

 

Por Andrea Matarazzo

 

Publicado na Folha de São Paulo em 19 de janeiro de 2014

 

Os “rolezinhos” tornaram-se o assunto deste verão. Os encontros de um número expressivo de jovens em shoppings de São Paulo são considerados por muitos como uma espécie de continuação das manifestações de desencanto e indignação de junho passado.

 

Há, de fato, aspectos em comum. Como as passeatas a céu aberto contra a péssima gestão do Estado brasileiro, os “rolezinhos” reúnem participantes que marcam o encontro previamente pelas redes sociais.

 

Em ambos, grupos oportunistas de vários matizes ideológicos procuram pegar carona na notoriedade desses movimentos.

 

No caso dos “rolezinhos”, comerciantes e frequentadores dos shoppings e, depois, a sociedade foram pegos de surpresa. Pois, assim como as manifestações de inverno, a moda do verão surgiu inesperadamente e se tornou o tema predominante das últimas semanas.

 

Mas há diferenças que não podem ser desprezadas. O rastilho de pólvora das manifestações foi o aumento do preço do transporte urbano e, depois, o movimento ganhou corpo com outras reclamações difusas. Não há, no caso atual, um discurso unificado de reivindicações. Não há sequer uma reivindicação expressamente declarada.

 

Recentemente, jovens marcaram um “rolê” em Itaquera a pretexto de diversão. Houve reação dos proprietários de shoppings e das autoridades. Isso acendeu o debate com vezos políticos e ideológicos.

 

Muitos a favor, muitos contra. A sensação que fica é que apoiar os “rolês” é de esquerda e condená-los é de direita. Isso é ridículo, pois interdita o debate, não traz solução.

 

Aliás, é o que vem ocorrendo em diversas frentes: o debate morre, reduzido a ideologia de almanaque ou a meras disputas entre quem é o “bonzinho” e quem é o “mauzinho”.

 

Não faz sentido ideologizar ou politizar os “rolezinhos”. Ser ou não ser politicamente correto não é nem deve ser a questão. O que temos de defender é a integridade física das pessoas que frequentam locais públicos ou privados de uso coletivo.

 

Também não se pode deixar de lado evidências como o fato de que grupos de mil jovens ou mais (independentemente da classe social, credo ou bairro) em espaços inadequados podem provocar se não depredações e agressões, como já ocorreu, sustos, correrias e atropelos.

 

A sociedade demanda códigos e padrões de comportamento para que os direitos de todos sejam assegurados. Da mesma forma que não se deve andar de skate em hospitais nem conversar durante um espetáculo, não é aceitável superlotar casas de eventos para não se repetirem tragédias como a da boate Kiss. Em recintos fechados, não é razoável dar margem a tumultos que ponham em risco a segurança das pessoas.

 

A liberdade de marcar encontros pela internet é uma novidade que demanda cuidados. Uma chamada pode reunir 20 ou 20 mil pessoas. Como controlar uma multidão sem um mínimo de planejamento e organização? Em São Paulo, qualquer evento que reúna determinada quantidade de pessoas, por lei, exige ação da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), do Corpo de Bombeiros, do Samu (Serviço Atendimento Médico de Urgência) e da Polícia Militar.

 

Eventos sem as medidas de cautela necessárias podem provocar desastres. Como esvaziar um shopping lotado em caso de incêndio? Em caso de tumulto, como evitar acidentes com pessoas mais velhas ou com alguma deficiência? Como proteger as crianças? Como prevenção, é preciso, com bom senso, coibir aglomerações e correrias em qualquer local sem a estrutura necessária.

 

Ou seja: seu “rolezinho” termina onde começa o do outro, pois a liberdade de cada cidadão é delimitada pela dos demais.

 

 

 

Cultura sem glamour

Por Andrea Matarazzo

Secretário de Estado da Cultura de São Paulo

 

 Divulgamos, há duas semanas, o projeto do Complexo Cultural Luz, um grande centro dedicado às artes do espetáculo a ser construído pelo Governo do Estado de São Paulo na região central da cidade. O belíssimo projeto do escritório suíço Herzog & de Meuron será um dos marcos arquitetônicos do País, com suas lajes entrelaçadas, transparências e paisagismo integrado. Quando pronto, será também um dos maiores centros culturais da América Latina, reunindo em um único edifício grandes espetáculos de música, ópera e dança.

Naturalmente, todos os holofotes se voltaram para a apresentação deste projeto e, como Secretário de Estado da Cultura de São Paulo, coordenei algumas etapas da elaboração do Complexo Luz. Também como secretário, estou diretamente envolvido nas decisões cujo resultado final são alguns dos espetáculos, exposições, equipamentos culturais e eventos de maior repercussão no país. Comparecer a estréias e vernissages faz parte das obrigações do cargo. Mas o que tem a aparência de festa e badalação, no entanto, é apenas o produto final de um trabalho que exige negociações, burocracia, e, claro, muito comprometimento.

 A gestão pública do setor cultural tem características específicas, uma vez que a principal matéria prima é humana e envolve a criatividade e a liberdade artística. Mas em uma dezena de outros aspectos, administrar a cultura não difere em nada da gestão de outros serviços públicos. Muito papel circulou, muita burocracia teve que ser vencida até chegarmos ao projeto do Complexo Cultural Luz ou à construção das Fábricas de Cultura na periferia de São Paulo.

Obras deste tipo têm uma série de detalhes a serem observados para que funcionem bem, coisas que o público talvez nem perceba quando vê o produto acabado. O piso para uma sala de dança precisa ser flexível para que o impacto em saltos não machuque os bailarinos, por exemplo; um evento a céu aberto precisa ser planejado de acordo com a previsão meteorológica (e, ainda assim, há o risco de cancelamento em função do clima); cada grupo ou artista tem requisitos técnicos específicos para sua apresentação, então imaginem o que é organizar vários shows em um único palco.  

Além disso, o embate entre a liberdade que se espera do processo criativo e a burocracia própria do setor público exige muito jogo de cintura. A legislação obriga o gestor a um pragmatismo que nem sempre é bem compreendido pelos artistas e produtores culturais. Muitos têm dificuldade em lidar com as exigências da Lei para utilização do dinheiro público. Em que pese alguns excessos, algum nível de controle será sempre necessário para garantir a boa aplicação destes recursos.

Os artistas, por sua vez, precisam de compreensão e boa vontade do gestor para pôr em prática ideias cujos resultados nem sempre são fáceis de vislumbrar em um resumo escrito ou numa apresentação de power point. Aqui, entra uma boa dose de confiança e cabeça aberta.

Junte tudo isso à necessidade de atender as demandas de municípios com características completamente diferentes, com um volume de recursos financeiros que jamais chegará para contemplar todos os pedidos, e teremos um cargo que, na prática, tem muito pouco do glamour que aparenta.