Um universo de possibilidades

Por Andrea Matarazzo

Quando fui secretário de Subprefeituras pela Prefeitura de São Paulo, tinha um problema complexo a resolver: reformar as calçadas da Paulista, a mais visível e querida avenida da nossa cidade. O belíssimo passeio de mosaico português estava em péssimas condições e a lista de reclamações era vasta, mas a principal não poderia ser outra: a mobilidade. Desde mulheres apontando a dificuldade em andar com saltos altos até a quase impossível circulação de cadeirantes.

 No início das discussões, minha ideia era restaurar o mosaico português – pela sua beleza e para não mudar esse visual que é tão conhecido de todos os paulistanos. À época, uma nota a esse respeito saiu em algum jornal. Alguns dias depois sou chamado ao Ministério Público para me explicar sobre uma reclamação feita por uma colega de Secretariado. A então secretária da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (pasta inédita criada pelo José Serra em 2005), Mara Gabrilli, havia feito queixa na promotoria por ter entendido que eu adotaria o mosaico português como pavimento sem tê-la consultado, ou seja, sem ter consultado os padrões de acessibilidade. Confesso que fiquei furioso e por telefone tomei satisfações a respeito do que eu considerava grave, um Secretário reclamando de outro via Ministério Público.

 Eu conhecia pouco a Mara e para falar sobre o mosaico e outros assuntos, combinamos um almoço no centro.  Neste encontro, descobri um universo que eu não achava, mas era, completamente desconhecido para mim.

 Ao descer do carro, tive de empurrar a cadeira de rodas da Mara por cerca de um quarteirão e meio de calçadas feitas em mosaico português.  O trecho era malfeito, o que fazia a cadeira trepidar como uma máquina de massagem. Depois de um pequeno percurso, uma das rodas dianteiras encaixou em um buraco onde faltavam pedrinhas do mosaico, travando a roda e fazendo com que Mara caísse para a frente. Entrei em desespero e não sabia como fazer para recolocar a minha amiga de voltaem equilíbrio. Mara, que tem alta tetraplegia, portanto, nenhum movimento do pescoço para baixo, dando risada, me pediu simplesmente que a puxasse de volta para o lugar. 

 Aquele pequeno passeio, de menos de cem metros, foi o suficiente para me convencer de que as calçadas em uma cidade devem ter algumas características básicas: serem lisas, antiderrapantes, de fácil manutenção. Ou seja, as calçadas precisam ser utilitárias e não decorativas.

 Deste dia em diante, passei a ter um convívio muito próximo com a Mara, que se tornou minha mentora em questões de acessibilidade. Aprendi com ela o quanto era importante a cidade ser inclusiva já que ter acessos é fundamental para todas as pessoas, sejam elas cadeirantes, cegas, surdas e que um dia, com o avançar da idade, todos teremos mais dificuldade em caminhar, enxergar, ouvir ou se movimentar nos lugares. Aprendi o quanto é fácil as construções ou novas obras aderirem ao Desenho Universal e também os imóveis existentes ou equipamentos urbanos em uso adequarem-se às normas.

 Ônibus acessíveis, banheiros idem, calçadas adequadas, conteúdos em versão áudio ou braile, intérpretes de libras disponíveis em locais públicos,  casas de espetáculos modernas e múltiplas, enfim, tudo isso mostra o grau de desenvolvimento de uma sociedade.

 Passei a entender de forma realista e objetiva, sem preconceitos ou misericórdia, as questões ligadas às pessoas com deficiência. Tanto que, enquanto estive na Prefeitura, passamos a fazer cursos sobre o assunto aos subprefeitos, coordenadores de obras e fiscais das subprefeitura.  A partir dessa iniciativa, todas as obras, aprovações, fiscalizações passaram a, obrigatoriamente, levar em conta as normas de acessibilidade. O mais importante é que depois dos treinamentos, as pessoas tornavam-se militantes do assunto. Acredito queem São Paulo avançamos muito. Mesmo tendo ainda infinitas coisas a serem feitas, a partir da criação da secretaria da Pessoa com Deficiência, pelo prefeito José Serra, a cidade deu um enorme passo na direção das cidades modernas e contemporâneas.

 Hoje em dia, em qualquer atividade que exerço, a acessibilidade é uma causa presente. Foi o caso da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Implantamos programas de adaptações em todos os museus e as obras novas, como as Fábricas de Cultura ou o novo Complexo Cultural da Luz, estão seguindo a cartilha da inclusão e serão 100% acessíveis para todos os tipos de deficiência.

Nunca iria imaginar que uma briga no Ministério Público abriria portas tão importantes para mim.  Conhecer mais de perto a Mara Gabrilli, hoje deputada Federal que representa tão brilhantemente nosso Estado, foi uma delas. A outra, por seu intermédio, foi ter acesso ao universo de todas as deficiências e saber como é fácil e ao mesmo tempo imensamente difícil contemplá-lo com políticas públicas. De um lado da balança, fazer as adaptações e implementações necessárias, o que é fácil quando se tem os mecanismos. Do outro, o trabalho diário e incansável de defender a bandeira da inclusão em todas as esferas – públicas e privadas. Tarefa difícil, sim, mas como aprendi, não impossível.