Nem coitadinho nem super herói

Por Guilherme Bara

Quando conhecemos alguém com deficiência, normalmente, nossas primeiras impressões são canalizadas unicamente nas limitações e privações que imaginamos que o nosso novo conhecido deve ter.

É comum as pessoas pararem para pensar como deve ser o mundo sem poder ver as coisas: o jogo de futebol, as cores, o rapaz ou a menina bonita, o pôr-do-sol, o rosto dos amigos e familiares.

Como será passar a vida sem poder correr, sem poder jogar bola, sem poder em alguns casos pegar sozinho o filho no colo? Viver sem ouvir as músicas e os diversos sons das pessoas e do planeta?

Como deve ser uma vida com dificuldade de compreensão? Como deve ser difícil ser tão diferente?

Pensamos tudo isso enquanto o tempo passa. E o tempo passa e a gente descobre pouco a pouco algumas coisas que eram inimagináveis para nós.

Descobrimos que o rapaz cego costuma correr com os amigos, algumas vezes até compete, já fez rapel, nada, voa de paraglider. Descobrimos que o cadeirante trabalha, faz teatro, se apaixona, sorri; Descobrimos que o surdo dança, viaja, se diverte, se comunica; Descobrimos que as pessoas com deficiência intelectual passeiam, vão ao shopping, namoram.

E quase sem percebermos, aquelas pessoas que nos causavam embaraço até para pensarmos nelas, passamos a vê-las quase como super-heróis. Que apesar de tudo são o máximo.

Mas o tempo passa e o dia a dia te coloca em situações em que sentimentos como aborrecimento, incômodo, prazer, raiva, gratidão, alegria, amor, paixão, desejo passam a fazer parte da sua relação com o novo conhecido. Você percebe que ele não é um coitado, e começa a notar que também não é um ser super especial que supera tudo.

Começa a reparar em suas fraquezas e fortalezas. E, finalmente, o pêndulo se equilibra.

Você, a partir do convívio, percebe que a pessoa com deficiência não é coitadinha nem super-herói. É uma pessoa que pode ser muito bacana ou muito chata. Ter defeitos inaceitáveis ou virtudes raras. Tudo isto independente de sua deficiência.

Nós, pessoas com deficiência, somos pessoas, como cada outra pessoa deste mundo.

Só incluímos alguém de fato quando somos capazes de termos todo o tipo de sentimento por ela. Do mais nobre ao mais repudiável.

Carnaval, eu também quero.

Por Guilherme Bara

Apontado por muitos como um dos maiores espetáculos da Terra, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro encantou mais uma vez os milhões de telespectadores que puderam acompanhar em cada detalhe a passagem das 13 agremiações do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí.

Após o jantar, liguei a televisão a fim de curtir tudo que as escolas trariam para prender a atenção do público. O enredo, os carros alegóricos e as fantasias, as coreografias, os personagens e tudo mais.

Quando as escolas começaram a passar, percebi que minha expectativa seria frustrada. Não pela falta de talento, criatividade ou beleza por parte das concorrentes ao título do carnaval, e sim, porque as maravilhas apresentadas seriam privadas as pessoas que como eu são cegas ou tem dificuldade visual.

Os apresentadores falavam dos carros e das alegorias com um superficial toque de descrição, insuficiente para uma boa compreensão por parte das pessoas que não conseguiam ver as imagens. A descrição era complementar.

A partir da segunda escola, perdi a atenção no desfile e comecei a imaginar quais seriam os argumentos para convencer os apresentadores a detalhar a descrição das imagens. As pessoas cegas poderiam ter acesso e usufruir de uma maneira mais intensa do desfile. Pessoas idosas e com baixa visão, além de pessoas com dislexia também se beneficiariam.

E quanto às pessoas que não tem dificuldade alguma em enxergar? Fiz-me esta pergunta, porque, infelizmente apenas esta resposta poderia ser capaz de sensibilizar os responsáveis pela transmissão do carnaval.

Uma narração rica em detalhes faz com que o telespectador repare mais em cada momento, em cada situação mencionada. Quando citamos o detalhe prendemos a atenção da pessoa. Conquistamos seu olhar, aguçamos sua percepção o que traz uma espécie de energia e sentimento para o ato de olhar, de ver.

Uma simples orientação faria com que a transmissão naturalmente ficasse mais inclusiva e prazerosa para todos que a assistiam.

Igualmente em outros temas como as calçadas, quando você facilita o acesso para as pessoas com deficiência, beneficia a vida da população como um todo. Quem sabe no próximo carnaval…