A imprensa que o PT odeia

 Por Mara Gabrilli

 

 Temeroso com o início do julgamento do mensalão, marcado para agosto, José Dirceu, um dos 38 réus do processo, não relutou em atacar a imprensa recentemente ao pedir para que estudantes da União da Juventude Socialista (UJS) saíssem às ruas para travar a batalha contra o monopólio da mídia.

Por que Dirceu, no auge de sua indignação com o que considera uma manipulação midiática, não acena para que esses mesmos jovens questionem o encontro de Lula com o ministro Gilmar Mendes e a tentativa desmoralizada de adiar uma ação esperada por toda a sociedade?

Pudera sua ansiedade pelo julgamento; Dirceu é um capítulo a parte nessa história. Ele fez parte do laboratório do que tempos depois seria chamado de mensalão. Afinal, consta nos autos que muito antes do assassinato do prefeito Celso Daniel, em 2002, Dirceu, na época presidente do PT, já se esbaldava com dinheiro desviado, oriundo da extorsão feita a empresários de Santo André. Meu pai foi um dos espoliados. Todo mês tinha sua empresa invadida por Sérgio Sombra, segurança de Celso Daniel. Ele jogava o revólver na mesa e exigia a “caixinha”.

Para o ex-prefeito de Santo André, os fins justificavam os meios – Celso considerava tal prática normal, contanto que o dinheiro da extorsão fosse para financiamento das campanhas do PT.

Meu pai inutilmente ligava para o gabinete de Gilberto Carvalho, na ocasião secretário de Governo de Celso Daniel, para alertar sobre a bandalheira na administração do município. Era debochado enquanto as ameaças aumentavam a cada dia. Ficou muito doente, foi obrigado a abandonar o que mais amava fazer: trabalhar. Emudeceu. Foi tirado de cena. No ano passado nos deixou. A mim restou uma sensação de impunidade latente no peito.

Pois bem, finalmente, o processo do mensalão está maduro e pronto a ser julgado. O povo espera por isso. Então saiamos às ruas, sim, mas para cobrar justiça. Fica aí o meu convite a José Dirceu e toda tropa mensaleira indignada com a mídia que os taxa de “ladrões”.

Pergunto-me qual seria o melhor emprego de adjetivo para designá-los: corretos? honestos? injustiçados?!

São indissolúveis a liberdade de imprensa e a democracia. Então, caberá aos próprios veículos e à sociedade julgar esse poder social dos noticiários. Não cabe ao Estado fazer essa agendasetting.

Delúbio Soares, por exemplo, afirmou há pouco tempo, durante reunião com aliados, em Morrinhos, Goiás, que a imprensa já havia condenado a ele e a seu partido no julgamento do mensalão. O petista foi além e disse que a denúncia ao esquema de corrupção não passava de uma fantasia.

O discurso do ex-tesoureiro, esse sim fantasioso, é só mais uma das manobras (mal sucedidas) criadas pelo PT para desviar os olhos do povo e calar a voz da imprensa para os escândalos de corrupção do governo Lula. Aliás, esse mais um dos protagonistas da origem de um dos maiores esquemas de corrupção da história de nossa política.

Não é por acaso que o ex-presidente tentou usar a CPI do Cachoeira como cortina para velar o julgamento do mensalão. Conheço bem essa manobra para desvirtuar a corrupção latente nas entranhas do partido de Lula. Senti na pele o desdém pelo qual o ex-presidente lida com a corrupção.

Fui a primeira pessoa a levar toda essa história ao conhecimento do Ministério Público de São Paulo e denunciar o esquema de corrupção depois da morte de Celso Daniel. Procurei o presidente Lula para contar que as retaliações continuavam no ABC e que algo precisava ser feito. Ele me recebeu em seu apartamento, ouviu toda a história, fez ares de surpresa – como se tudo aquilo lhe fosse novo. “Ele não sabia de nada….” Esse discurso perdura até hoje.

Durante encontro com Lula, vários jornalistas cercavam o local. Ao sair de seu apartamento, o presidente ordenou que um de seus assessores me determinasse a não dizer o teor que tratávamos. Sugeriu até que dissesse que o assunto era reabilitação.Tentou manipular-me para que não contasse a verdade à imprensa. Lula não calou-me. Na ocasião, já tetraplégica devido a um acidente de carro, presidia uma ONG para buscar qualidade de vida para pessoas com deficiência e não passava pela minha cabeça entrar para a política.

Hoje, depois de dez anos da morte de Celso Daniel, consigo enxergar um lampejo de esperança nesse lamaçal. Sei que o julgamento do processo não poderia estar em mãos mais brilhantes que a do presidente do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto. Presenciei a leitura de seu relatório no julgamento em que discorreu sobre a origem da vida, o que culminou na liberação do uso de células-tronco embrionárias para pesquisas no Brasil. A decisão depositou luz a milhares de pessoas que aguardavam há anos tal deliberação, engendrando novas perspectivas científicas para o País. Jurista, transformou dados em poesia. Sua ética e transparência me levam a crer em um recomeço pautado na liberdade de imprensa, em uma política menos melindrada e mais honesta. Torço para que devolva o que meu pai não pôde ver, mas que muitos brasileiros ainda esperam: justiça

 

Somos Todos Iguais?

Por Mara Gabrilli

Ainda jovem, carregava um pensamento muito comum aos brasileiros: o de que
os políticos são todos iguais. Talvez naquela época eu ainda não refletisse
muito sobre esse assunto – e alguns outros, mas ao cabo, acolhia esse
sentimento como boa parte da população. Um dia, sofri um acidente de carro,
quebrei o pescoço e fui obrigada a ser diferente. Novo corpo, nova forma de
me locomover, novo olhar para o mundo – minha perspectiva ótica não é igual,
sentada na cadeira, meu ângulo de visão é outro. Não posso dizer que muita
transformação em mim é ocasionada pela tetraplegia. Mas, posso afirmar que
ser obrigada a tomar uma nova vida pelas rédeas me fez encarar obstáculos de
maneira bem diferente.

A cadeira não foi um deles, por exemplo, quando anos depois, ao ser bastante
instigada pela minha mãe, saí de casa e fui ao Ministério Público de Santo
André denunciar o esquema de corrupção na cidade que envolvia empresários de
ônibus (meu pai era um deles), dos quais se extorquia uma “caixinha” para o
dito fundo de campanha do PT. História bem conhecida pelos diários impressos
e cujo ápice se deu com a morte do prefeito Celso Daniel. Antes ainda do
assassinato, bati na porta do apartamento do então presidente Lula para
fazer a mesma denúncia. Cafezinhos e promessas na mesa, mas de concreto nada
foi feito.

Ainda assim não perdi a esperança na política, achei que podia ser
diferente: candidatei-me a vereadora e obtive votos que me garantiram a suplência, fui a primeira Secretária da Pessoa com Deficiência do País, elegi-me, então, vereadora e agora sou Deputada federal. No início deste ano, quando cheguei a Brasília, aquele
sentimento de jovem me traiu novamente. Contudo, felizmente, para minha própria surpresa, a desagradável sensação do “tudo é assim mesmo” não faz parte do meu dia a dia como parlamentar.

Ao adentrar as entranhas do Congresso Nacional, me surpreendi com uma realidade diferente. E eu, uma apaixonada pela diversidade humana, deflagrei em Brasília mais um sinal de que, realmente, não somos todos iguais. Deparei-me com fatos distantes daqueles que alimentam a mídia nacional todos os dias e deixam os brasileiros sem
esperança de viver em um país menos enlameado. Falo de uma política do bem,
feita por alguns parlamentares realmente dispostos a trabalhar.

Sou contra a deterioração das estruturas democráticas. Alguns maus políticos
não podem acabar com a seriedade da democracia brasileira. Esse é meu
sentimento e foi assim desde que entrei na política. Surpreendi-me com
Brasília, mas de maneira muito positiva. A começar pela seriedade e
competência da estrutura da Casa, seus funcionários e toda a gestão interna.

No meu caso,  acessibilizaram o plenário para que eu e outros parlamentares
cadeirantes pudessem utilizar o espaço, como qualquer outro membro da Casa.
Ali, fiz meu primeiro discurso. E o fiz com muita honra, em homenagem aos
meus eleitores e a todos aqueles que tornaram aquele fato possível.
Encontrei parlamentares dedicados, sensíveis e empenhados para representar a
população que lhe conferiu seu voto. Ali presencio a luta de outros
políticos para tornar leis projetos que realmente melhorem a vida da
população.

E se de um lado, ainda vemos representantes viciados no Poder, dopados e
cegos dentro de redes sujas de articulação e interesse, do outro, podemos, sim, vislumbrar o trabalho de gente que carrega a responsabilidade de
representar uma nação. Momentos assim funcionam como um lampejo e servem
para enxergar a diversidade onde se menos espera.

Mas, tenho de admitir que aquele sentimento de impunidade, de quando ainda era só  uma menina, continua a me perseguir,
ora como um sonho ruim, ora como uma guerra que tento ganhar diariamente. A corrupção no Brasil é lugar comum para os políticos, não podemos deixar que o seja também para a sociedade. Não podemos deixar que a impunidade manche nossas instituições. Por isso, é vital que não matemos essa pequena chama que ainda acalenta os corações de quem acredita nas pessoas.