Cidades inclusivas, cidades inteligentes

Por Reinaldo Bulgarelli

Coisa mais difícil é me tirar de casa para passear, mas jantar com os amigos Marcelo e Mônica era um ótimo motivo. Acabamos andando pela Paulista já tarde da noite e foi logo depois da Rio + 20. Levei um susto com tanta gente na rua naquela hora em que já estou dormindo faz tempo.

Havia skatistas e índios brasileiros, músicos peruanos e um Michael Jackson cercado de fãs, famílias caminhando lentamente para admirar os prédios, tribos de todo tipo se entrelaçando no vai e vem da avenida mais paulista da cidade. Para que os skatistas pudessem ter seu lugar, os demais desviavam ou iam por cantos da calçada. Diante dos shows a gente desviava, se espremia entre as multidões ou parava para assistir. Se eu tivesse tirado uma foto, daria o nome de tolerância.

Lembrei logo do livro do Carlos Leite: Cidades Sustentáveis, Cidades Inteligentes, lançado este ano pela Bookman. O subtítulo é Desenvolvimento Sustentável num Planeta Urbano. Ele me convidou para participar do diálogo com Beth França e Raul Juste Lores para o lançamento em 11 de junho passado. Carlos Leite diz que as grandes cidades são mais sustentáveis, assim como defende a ONU e o economista Edward Glaeser, professor de Haward. Cidade é solução e quanto mais vertical, melhor.

Já pensou acabar com as cidades, grandes ou pequenas, espalhando os 6 bilhões de pessoas pelo planeta para que todos tenham uma vida mais verde? Pois é, não vai dar certo. O programa Cidades e Soluções, com André Trigueiro, também falou do assunto. Até 2050, estima-se que o planeta terá 9 bilhões de pessoas, com 6,3 bilhões vivendo nas cidades. É o dobro do número atual, que já não é pequeno.  Hoje, dos 6 bilhões, 3,5 bilhões de pessoas vivem nas cidades que, aliás, ocupam 5% do planeta.

Muitos, como estes autores citados, defendem que quanto menos espaço ocuparmos, menos impactos causamos à natureza. Há outros que defendem mesmo é o confinamento da humanidade em um território ainda menor que os 5% que ocupamos, já que tanto mal causamos às outras espécies…

Exageros à parte, é evidente que precisamos repensar o modo como vivemos. Cerca de 70% das emissões de CO2 acontecem nas cidades. Tudo indica que as cidades são os espaços que mais nos atraem e que a tendência é essa mesmo. Seja por necessidade ou por escolha, nascemos, ficamos ou migramos para as cidades e algumas delas, como São Paulo, se tornam gigantescas. Somos, por aqui, 11 milhões de habitantes. Chegamos a quase 20 milhões considerando as cidades próximas.

Além das questões ambientais, precisamos mais que nunca aprender a conviver com a diversidade. Mais que isso, claro, precisamos aprender a valorizar a diversidade. A vida é um inferno para quem odeia a diversidade e estes acabam fazendo da vida dos outros um inferno também. A intolerância é um veneno tão perigoso para a saúde como a poluição.

Ah, para os que não gostam da palavra tolerância, lembro aqui a Declaração de Princípios sobre a Tolerância, aprovada pela Unesco em 1995: “1.1 A tolerância é o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade das culturas de nosso mundo, de nossos modos de expressão e de nossas maneiras de exprimir nossa qualidade de seres humanos. É fomentada pelo conhecimento, a abertura de espírito, a comunicação e a liberdade de pensamento, de consciência e de crença. A tolerância é a harmonia na diferença. Não só é um dever de ordem ética; é igualmente uma necessidade política e jurídica. A tolerância é uma virtude que torna a paz possível e contribui para substituir uma cultura de guerra por uma cultura de paz. 1.2 A tolerância não é concessão, condescendência, indulgência. A tolerância é, antes de tudo, uma atitude ativa fundada no reconhecimento dos direitos universais da pessoa humana e das liberdades fundamentais do outro. Em nenhum caso a tolerância poderia ser invocada para justificar lesões a esses valores fundamentais. A tolerância deve ser praticada pelos indivíduos, pelos grupos e pelo Estado.” Declaração de Princípios Sobre a Tolerância 

Com os 3,5 bilhões que hoje vivem nas cidades e com a gente aqui convivendo com outras quase 20 milhões de pessoas, a tolerância é ou não é um conceito importante? Se você se chatear com o povo dando show na av. Paulista, andando de skate, circulando pela cidade mesmo de madrugada, o stress aumenta em torno de algo que só tem solução com a mudança para um lugar tranquilo, mas poluindo ainda mais o planeta. Ou você acha que está sozinho neste desejo?

Uma pesquisa mostrou que 51% dos paulistanos gostariam de morar em outro lugar. Que triste! Minha cidade teve notas baixas em transporte, assistência social, acessibilidade, desigualdade social, transparência e participação política. Uma queixa generalizada dos equipamentos, bens e serviços que fazem pensar se as pessoas querem sair desta cidade ou se querem construir outra cidade melhor em algum outro lugar. Porque não participar mais e ajudar a construir em São Paulo esse paraíso?

Grande parte dos meus amigos que trabalham com a chamada sustentabilidade sonha com o campo e pragueja contra a cidade. Eu moro na Rua Augusta, perto da av. Paulista, em área muito agitada, portanto, sou visto como um bicho estranho por muitos deles, eu sei. Mas o tempo e a energia que usamos para praguejar contra a cidade, não poderiam ser utilizados para melhorar a nossa qualidade de vida? Como vamos melhorar algo se nossa cabeça vive sonhando com florestas? Por isso eu gosto tanto do programa do André Trigueiro – Cidades e Soluções. Faz pensar nos desafios e possibilidades que temos por aqui.

Nada contra quem sonha em viver no campo ou cidades bem menores. A possibilidade de escolher é maravilhosa, mas defender isso para os 6 bilhões exige pensar nas consequências. Aliás, passei uma semana numa cidade pequena e fiquei mais irritado com os carros com grandes alto-falantes que faziam propaganda de algumas lojas, do que fico aqui em São Paulo com todo nosso agito. Vendo aquele barulhão todo, onde estão as cidades pacatas do interior?

Cidades inclusivas são cidades inteligentes, parafraseando o Carlos Leite. Também é verdade que é preciso inteligência para termos inclusão, com bens, serviços e equipamentos distribuídos de forma justa e muito espaço para a expressão de todos. Sem expressão, não há solução, mas exige muito compromisso com a postura ativa de respeito que a Declaração da Unesco estimula.

Coisas que não podem acontecer na cidade inclusiva, inteligente, que atrai e mantém gente criativa e participativa:

“Eu não gosto, portanto, não deve existir.”

“Eu não sei lidar, portanto, não deve estar aqui.”

“Eu não concordo, portanto, não deve se expressar.”

“Eu não entendo, portanto, não deve ser boa coisa.”

“Eu não acredito, portanto, não deve ter vez.”

“Eu não tolero, portanto, não deve ser visto.”

 A exclusão tem total relação com o autoritarismo, assim como a inclusão é amiga da democracia. Difícil é dizer se a inclusão é mais importante para a democracia ou se a democracia é mais importante para a inclusão. Uma é parte da outra. Gente que se acha o centro do mundo, o modelo de ser humano, o critério de normalidade, de gente boa, de moralidade, de coisas saudáveis e boas para todos, não consegue conviver bem nas cidades, muito menos nas democracias. A diversidade é a cara das cidades, mas as cidades que odeiam diversidade não têm futuro, evidentemente. Como anda seu gosto pela diversidade?