Quem deve representar as pessoas com deficiência?

Por: Guilherme Bara

 Em abril de 2005, o então Prefeito José Serra criou a primeira Secretaria municipal da pessoa com deficiência do Brasil. Para comandar a pasta foi convidada Mara Gabrilli, até então desconhecida psicóloga presidente da ONG PPP (Projeto Próximo Passo).

 O ineditismo da ação somado ao enorme carisma de Mara, tetraplégica desde 1994 devido a um acidente na Rodovia Rio-Santos, contribuiu para que o tema saísse das revistas especializadas e conquistasse um espaço na mídia regular.

 Nestes sete anos, várias outras prefeituras criaram órgãos semelhantes, inclusive o estado de São Paulo, também com Serra, hoje tem a Secretaria de Estado dos direitos da pessoa com deficiência.

 O gesto de criar uma Secretaria traz um ganho que vai além das ações pontuais desta pasta. Sinaliza-se para toda a equipe de governo e para sociedade que o assunto passa a ser prioridade.

 A Secretaria torna-se um importante símbolo que traz para o centro do debate o tema da inclusão.

 Este importante fato social perde boa parte de seu impacto quando as pastas municipal e estadual da pessoa com deficiência passam a ser dirigidas por pessoas sem deficiência, como acontece atualmente no estado e no município de São Paulo.

 Sem entrar no mérito da qualidade das gestões, o fato das pessoas com deficiência não estarem à frente destes processos, vem no sentido contrário de um movimento que visa diferenciar os conceitos de deficiência e incapacidade.

 Entre os 10% da população que, segundo a ONU, tem algum tipo de deficiência, o Governador de São Paulo e o Prefeito da capital não encontraram ninguém, que segundo eles tem capacidade de liderar politicamente as ações de governo para a inserção social deste enorme segmento.

 O cargo de Secretário é, antes de tudo, uma posição política que no caso de representar um grupo social adquire também uma importante conotação simbólica que serve como sensibilizador da população em relação ao tema.

 Isto fica evidente quando comparamos a visibilidade que a Secretaria da cidade de São Paulo tinha quando era liderada pela Mara Gabrilli com as últimas duas gestões, comandadas por Renato Baena, este por indicação da própria Mara, e atualmente pelo “Verde” Marcos Belizário, este com muito pouco contato com a causa até o momento que assumiu a pasta, ambos sem deficiência.

 Sem fazer juízo de valor das atuais gestões, fica o alerta para a mensagem subliminar passada pelos governos, que as pessoas com deficiência são incapazes de liderar seu próprio processo de inclusão.

Se sobrou sensibilidade aos governantes quando criaram a pasta que prioriza o tema da acessibilidade, para alguns deles, faltou coerência na escolha de seus titulares.