Cultura sem glamour

Por Andrea Matarazzo

Secretário de Estado da Cultura de São Paulo

 

 Divulgamos, há duas semanas, o projeto do Complexo Cultural Luz, um grande centro dedicado às artes do espetáculo a ser construído pelo Governo do Estado de São Paulo na região central da cidade. O belíssimo projeto do escritório suíço Herzog & de Meuron será um dos marcos arquitetônicos do País, com suas lajes entrelaçadas, transparências e paisagismo integrado. Quando pronto, será também um dos maiores centros culturais da América Latina, reunindo em um único edifício grandes espetáculos de música, ópera e dança.

Naturalmente, todos os holofotes se voltaram para a apresentação deste projeto e, como Secretário de Estado da Cultura de São Paulo, coordenei algumas etapas da elaboração do Complexo Luz. Também como secretário, estou diretamente envolvido nas decisões cujo resultado final são alguns dos espetáculos, exposições, equipamentos culturais e eventos de maior repercussão no país. Comparecer a estréias e vernissages faz parte das obrigações do cargo. Mas o que tem a aparência de festa e badalação, no entanto, é apenas o produto final de um trabalho que exige negociações, burocracia, e, claro, muito comprometimento.

 A gestão pública do setor cultural tem características específicas, uma vez que a principal matéria prima é humana e envolve a criatividade e a liberdade artística. Mas em uma dezena de outros aspectos, administrar a cultura não difere em nada da gestão de outros serviços públicos. Muito papel circulou, muita burocracia teve que ser vencida até chegarmos ao projeto do Complexo Cultural Luz ou à construção das Fábricas de Cultura na periferia de São Paulo.

Obras deste tipo têm uma série de detalhes a serem observados para que funcionem bem, coisas que o público talvez nem perceba quando vê o produto acabado. O piso para uma sala de dança precisa ser flexível para que o impacto em saltos não machuque os bailarinos, por exemplo; um evento a céu aberto precisa ser planejado de acordo com a previsão meteorológica (e, ainda assim, há o risco de cancelamento em função do clima); cada grupo ou artista tem requisitos técnicos específicos para sua apresentação, então imaginem o que é organizar vários shows em um único palco.  

Além disso, o embate entre a liberdade que se espera do processo criativo e a burocracia própria do setor público exige muito jogo de cintura. A legislação obriga o gestor a um pragmatismo que nem sempre é bem compreendido pelos artistas e produtores culturais. Muitos têm dificuldade em lidar com as exigências da Lei para utilização do dinheiro público. Em que pese alguns excessos, algum nível de controle será sempre necessário para garantir a boa aplicação destes recursos.

Os artistas, por sua vez, precisam de compreensão e boa vontade do gestor para pôr em prática ideias cujos resultados nem sempre são fáceis de vislumbrar em um resumo escrito ou numa apresentação de power point. Aqui, entra uma boa dose de confiança e cabeça aberta.

Junte tudo isso à necessidade de atender as demandas de municípios com características completamente diferentes, com um volume de recursos financeiros que jamais chegará para contemplar todos os pedidos, e teremos um cargo que, na prática, tem muito pouco do glamour que aparenta.