O bem e o mal de Eduardo Cunha

Por Guilherme Bara

Em uma eleição que escancarou a fragilidade política do governo Dilma, Eduardo Cunha se elegeu presidente da Câmara dos Deputados.

Evangélico e exímio conhecedor do funcionamento do Congresso, o deputado do PMDB, há algum tempo, tem batido de frente com a presidente Dilma, tanto que esta não poupou esforços para tentar derrotá-lo na disputa contra Arlindo Chinaglia.

O que tem se mostrado positivo e de negativo após os primeiros quinze dias da vitória de Cunha.

Desafeto do governo, Eduardo Cunha articulou, contra a vontade do governo, a aprovação do projeto de lei que determina o orçamento impositivo. Esta medida garante que o orçamento aprovado para cada ano seja, de fato, executado, desta forma trazendo mais transparência à execução do orçamento e diminuindo o poder de barganha do Executivo, que utiliza a liberação de verbas como moeda de troca com os parlamentares a fim de aprovar projetos de interesse do governo.

Outra ação positiva de Cunha tem sido a movimentação para que seja aprovado um projeto de lei que dificulte que parlamentares troquem de partido.

Esta medida prejudicaria os planos do Ministro das cidades Gilberto Kassab, que articula a volta do PL, a fim de atrair descontentes de diversos partidos, principalmente do PMDB. Esta ação de Kassab tem o aval de Dilma já que diminuiria a influência do PMDB na base governista.

Há ainda duas outras ações positivas de Cunha. Uma é tirar da pauta parlamentar o projeto de lei apoiado por Dilma que visa controlar os órgãos de comunicação. A segunda é priorizar um projeto de reforma política que representa mais os interesses da nação do que os interesses de hegemonia do PT.

Embora movido por interesses casuísticos, estas iniciativas de Eduardo Cunha contribuiriam para dar mais transparência e decência à relação do governo com o Congresso.

Porém, se por um lado as ações de Eduardo Cunha trazem benefícios sistêmicos para o funcionamento político do país, outras prejudicariam o debate sobre temas que estão, diretamente, ligados ao dia a dia da população.

EM entrevista recente, Cunha disse que o projeto de lei que trata da descriminalização do aborto só seria discutido por cima de seu cadáver. Outra movimentação de Cunha é articular para se aprovar projetos que restringiriam o conceito de família apenas aquelas formadas por casais heterossexuais.

Em relação ao aborto, o debate é necessário e urgente, não para que obrigatoriamente, seja aprovada a sua legalização, mas sim para que a sociedade tenha mais acesso a informações sobre um tema que tem, anualmente, vitimado milhares de mulheres no país.

Já na questão dos direitos dos homossexuais, corremos o risco de retrocedermos em pontos que já foram debatidos e aprovados pela maioria da sociedade.

Seja para o bem ou para o mal, esta discussão evidencia o exagerado poder que é dado ao presidente da Câmara, na medida que ele, sozinho, tem o poder de decidir a pauta legislativa do país.

Eu não sou Charlie! E você?!

Por Guilherme Bara

Presenciamos mais uma vez um ataque terrorista, desta vez na capital cultural da Europa, Paris.

A forma fria e calculada que os membros do grupo terrorista articularam e executaram o plano faz com que nos indignemos e nos mobilizemos contra estes grupos extremistas que se vangloriam destes tipos de ataques que levam sofrimento a tanta gente.

Exposta minha indignação, gostaria de abordar o outro ponto deste caso.

Vejo milhares de pessoas se manifestando a favor do jornal Charlie Hebdo, tendo como mote principal a liberdade de expressão.

Neste ponto quero deixar clara minha posição: Eu não sou Charlie!

Não posso ser a favor de piadas ofensivas contra pessoas ou grupos em função de sua etnia, religião, deficiência ou qualquer outro marcador identitário.

Há pouco tempo acompanhamos aqui no Brasil a enorme onda de repúdio ao humorista Rafinha Bastos pelo fato de ele ter feito uma piada que envolvia a cantora Wanessa Camargo. Ali todos diziam que o humor deveria ter limites e que este limite passava pelo respeito às pessoas.

Este mesmo humorista foi acionado na justiça por fazer piadas extremamente inadequadas com pessoas com deficiência intelectual.

Fico surpreso em ver pessoas que, na época, condenaram o Rafinha, agora, clamarem pela liberdade de expressão no caso Charlie.

Em favor do periódico francês, muitos dizem que ele faz piada com todas as religiões, desta forma o isentando parcialidade.

Sim, ele, de fato, satiriza todas as religiões, prática a qual já discordo.

Este comportamento se agrava quando sabemos que a religião mulçumana é menos tolerante a estes tipos de brincadeiras e que grupos radicais islâmicos se aproveitam destes fatos para executarem ataques terroristas, justificando assim suas existências e atraindo mais financiadores e jovens simpáticos a suas supostas causas.

Este tipo de sátira também contribui para reforçar o já enorme preconceito existente na Europa contra os mulçumanos, que são na sua extrema maioria, formados por pessoas de paz.

São de talento discutível os humoristas que dizem que está cada vez mais difícil fazer humor. Pobres humoristas que só conseguem ser engraçados tendo como linha de atuação a fomentação do preconceito.

Não podemos deixar que nossa indignação a ações terroristas covardes sirvam para dar apoio a publicações deliberadamente irresponsáveis que contribuam para o fortalecimento do preconceito contra diversos grupos sociais.

Eu não sou Charlie! E você?!