Atividades na natureza promovem autonomia e auto-confiança às pessoas com deficiência intelectual

Por Guilherme Bara

Uma parceria da ONG Outward Bound Brasil com a APAE de São Paulo  proporciona uma incrível experiência para jovens com deficiência intelectual.

A cada trimestre um novo grupo de alunos da APAE de São Paulo enfrenta o desafio de passar 4 dias em uma expedição na montanha.

Andar em trilhas, organizar suas mochilas, montar barracas, preparar suas refeições, tomar decisões e  realizar trabalhos em equipe são alguns dos desafios desta experiência.

A odisséia também inclui escalar árvores e atingir o cume de uma montanha.

Minha esposa, Isabela Abreu, participou do processo de criação do projeto Borboleta Azul que tornou possível a realização deste sonho.

Ela também liderou a primeira expedição, que foi tema de um documentário produzido por Tomas Cavalieri.

Assista o vídeo desta experiência única

http://www.youtube.com/watch?v=X51nMg3U2gg

 

A inclusão para poucos

 Por Guilherme Bara

 Vivemos uma significativa onda inclusiva em nosso país.

 Já tivemos uma novela que levou, diariamente, para dentro das casas de milhões de famílias uma personagem tetraplégica. Pouco antes outra novela, não pela primeira vez, aumentou nossa familiaridade com as pessoas cegas.

 Temos colunistas com deficiência escrevendo em grandes jornais. Encontramos reportagens quase que diárias pelos canais de televisão falando sobre inclusão e até o “Fantástico” tem agora uma jornalista com deficiência, e o mais importante, falando de temas gerais, não necessariamente sobre inclusão.

 Algumas empresas de seguros já desenvolvem produtos customizados para pessoas com deficiência. Motéis anunciam quartos adaptados, um candidato à Presidência da República trouxe o tema para o debate político.

Poderia citar dezenas de outros exemplos de fatos que mostram a abrangência deste inédito movimento. Isto tudo é muito bom para pessoas como eu, que tem deficiência e que passam de uma posição marginal para, em alguns casos, uma inimaginável há pouco tempo, situação de protagonismo.

 Aproveito este momento para chamar a atenção da sociedade e principalmente do governo para um importante desafio.

Precisamos, impulsionados pelos ventos a favor, avançar no processo de inclusão de maneira a beneficiar as pessoas que, embora favorecidas também por esta onda, têm degraus a mais para percorrer neste caminho da cidadania.

 Falo dos 80% do universo das pessoas com deficiência, que segundo a ONU, vivem na faixa de pobreza. Falo de pessoas que têm pouco acesso aos serviços públicos, seja pela falta deles, seja pela falta de informação por parte das pessoas e de suas famílias. Falo de pessoas que muitas vezes passam boa parte da vida dentro de um quarto.

 Se a realidade de muitas pessoas é enfrentar as dificuldades que temos para transitar nas ruas acidentadas dos centros das grandes cidades, guiados por uma bengala ou sentados em uma cadeira de rodas desviando de obstáculos como caçambas, orelhões e caixas de correios, temos um número imensamente maior de pessoas que para acessar estes espaços, já difíceis, têm que passar também pelas ruas próximas às suas casas que, não raro, nem calçadas têm.

 Falo de pessoas com deficiência que dividem espaço com carros, às vezes se locomovendo em cima de um skate ou mesmo se arrastando pelo asfalto; falo de pessoas que improvisam cabos de vassouras como bengalas.

 É hora dos governos que têm interesse na real inclusão das pessoas com deficiência aproveitarem o momento e articular a sociedade para estruturar um plano estratégico de acessibilidade por todo o país. Sei que não é simples um trabalho desta magnitude, porém é urgente termos um retrato real e um planejamento para sabermos onde ir, o quanto já percorremos e o quanto falta para avançarmos.

 Não podemos ser mais um monte de gente, cada um correndo para um lado, com ações importantes, mas pontuais, muitas vezes sobrepostas. Vamos expandir para toda a população a oportunidade que eu, a Flavia Cintra, o Jairo Marques, a Tabata Contri e muitos outros estamos tendo de termos um pouco mais de respeito por parte da sociedade.

 

O papel da educação inclusiva em minha vida

Por: Guilherme Bara

Como muitos já devem saber, tenho deficiência visual. Ela é causada por uma retinoze pigmentar (doença degenerativa que causa a má irrigação das células da retina e a perda gradativa da visão).

Estudei no Colégio Dante Alighieri na cidade de São Paulo desde o pré-primário. O Dante é um colégio convencional, longe de ser uma escola especializada no atendimento a pessoas com deficiência visual.

Penso que ter estudado em uma escola convencional foi fundamental para meu processo de inclusão na sociedade. Ao longo dos anos fui perdendo a visão aos poucos e meus amigos acompanharam todo esse processo.

Claro que minha deficiência estava ali, não tinha como ser desconsiderada por ninguém e nem deveria. Isto era o mais prazeroso; eu interagia de forma natural com meus colegas. As pessoas mais do que viviam, conviviam comigo me aceitando.

Isto só acontecia porque aquelas pessoas do colégio (colegas de classe, professores e funcionários) tinham um contato diário comigo.

No começo, como quase todo mundo, eles ficavam, apenas, observando, vendo como eu fazia as coisas; um pouco com receio de se aproximarem, principalmente os professores e funcionários. Já as crianças chegavam com mais facilidade, menos censuras e menos estratégias, o que facilitava para que todos se sentissem mais à vontade.

Percebiam que eu era mais um aluno, que, obviamente, tinha uma característica incomum. Não enxergava, mas que era um menino que brincava, me divertia, gostava de futebol, conversava na aula e tinha as características semelhantes às crianças da minha turma. Rapidamente a relação era desmistificada e eu me sentia à vontade.

Confesso que nesta época de minha vida, principalmente depois da minha visão ter piorado de forma mais acelerada, eu mesmo tinha dificuldades em aceitar minha deficiência.

Tentava escondê-la, e vocês podem imaginar como é viver querendo esconder uma coisa que todo mundo está vendo. Eu tocava pouco no assunto e meus amigos pouco queriam saber. O que eles queriam saber, eles já sabiam melhor que ninguém, pois estavam comigo todos os dias. E pode ser também que eles se sentissem intimidados pela minha postura de pouco falar sobre o assunto. Era uma situação nova para mim também, pois a retinoze faz com que se perca a visão aos poucos e quando você se acostuma com uma referência visual logo ela já muda e tudo muda.

Vivi toda esta fase e depois todo o processo de aceitação de minha deficiência junto aos meus amigos, convivendo, aprendendo, experimentando, rindo muito, me divertindo e às vezes chorando, mas sempre com eles.

Às vezes penso como teria sido minha formação se tivesse freqüentado uma escola própria para pessoas cegas, se não tivesse meus amigos da escola e do prédio, se meus amigos fossem apenas as crianças que não enxergam. Como eu me relacionaria com o resto do mundo hoje.

Sou casado, pai de uma menina linda que no último dia 29 completou nove meses. Com uma vida profissional bem resolvida, e amizades sólidas, me sinto uma pessoa feliz, muito de bem com a vida. Sou convicto de que ter, desde criança, convivido dentro de instituições regulares, contribuiu bastante para hoje eu ser uma pessoa socialmente incluída.