A inclusão para poucos

 Por Guilherme Bara

 Vivemos uma significativa onda inclusiva em nosso país.

 Já tivemos uma novela que levou, diariamente, para dentro das casas de milhões de famílias uma personagem tetraplégica. Pouco antes outra novela, não pela primeira vez, aumentou nossa familiaridade com as pessoas cegas.

 Temos colunistas com deficiência escrevendo em grandes jornais. Encontramos reportagens quase que diárias pelos canais de televisão falando sobre inclusão e até o “Fantástico” tem agora uma jornalista com deficiência, e o mais importante, falando de temas gerais, não necessariamente sobre inclusão.

 Algumas empresas de seguros já desenvolvem produtos customizados para pessoas com deficiência. Motéis anunciam quartos adaptados, um candidato à Presidência da República trouxe o tema para o debate político.

Poderia citar dezenas de outros exemplos de fatos que mostram a abrangência deste inédito movimento. Isto tudo é muito bom para pessoas como eu, que tem deficiência e que passam de uma posição marginal para, em alguns casos, uma inimaginável há pouco tempo, situação de protagonismo.

 Aproveito este momento para chamar a atenção da sociedade e principalmente do governo para um importante desafio.

Precisamos, impulsionados pelos ventos a favor, avançar no processo de inclusão de maneira a beneficiar as pessoas que, embora favorecidas também por esta onda, têm degraus a mais para percorrer neste caminho da cidadania.

 Falo dos 80% do universo das pessoas com deficiência, que segundo a ONU, vivem na faixa de pobreza. Falo de pessoas que têm pouco acesso aos serviços públicos, seja pela falta deles, seja pela falta de informação por parte das pessoas e de suas famílias. Falo de pessoas que muitas vezes passam boa parte da vida dentro de um quarto.

 Se a realidade de muitas pessoas é enfrentar as dificuldades que temos para transitar nas ruas acidentadas dos centros das grandes cidades, guiados por uma bengala ou sentados em uma cadeira de rodas desviando de obstáculos como caçambas, orelhões e caixas de correios, temos um número imensamente maior de pessoas que para acessar estes espaços, já difíceis, têm que passar também pelas ruas próximas às suas casas que, não raro, nem calçadas têm.

 Falo de pessoas com deficiência que dividem espaço com carros, às vezes se locomovendo em cima de um skate ou mesmo se arrastando pelo asfalto; falo de pessoas que improvisam cabos de vassouras como bengalas.

 É hora dos governos que têm interesse na real inclusão das pessoas com deficiência aproveitarem o momento e articular a sociedade para estruturar um plano estratégico de acessibilidade por todo o país. Sei que não é simples um trabalho desta magnitude, porém é urgente termos um retrato real e um planejamento para sabermos onde ir, o quanto já percorremos e o quanto falta para avançarmos.

 Não podemos ser mais um monte de gente, cada um correndo para um lado, com ações importantes, mas pontuais, muitas vezes sobrepostas. Vamos expandir para toda a população a oportunidade que eu, a Flavia Cintra, o Jairo Marques, a Tabata Contri e muitos outros estamos tendo de termos um pouco mais de respeito por parte da sociedade.